Na era das telas sem fim e das bordas que desaparecem, a estética do liso não tolera a menor ranhura. Os meses passam como vídeos de TikTok, corroendo nossa capacidade de atenção. Rolamos o ano para cima e, quando vemos, já é dezembro. Quando foi mesmo a última vez que encontrei aquele amigo? O fim do ano chega como um copo de água fresca num deserto onde tudo escorre sem limites. Enfim, algo termina.
Em Sapiens, Harari lembra que camponeses medievais trabalhavam menos horas por semana do que nós. Mas, mais do que isso, viviam marcados pelo ritmo do clima e pelas necessidades do campo. A cada mês, havia uma parada, um marco, um sentido. O tempo era dividido não só pelo calendário agrícola, mas também por um desejo de organização simbólica — algo que ajudava a sustentar a vida emocional.
Somos “seres emocionais providos de capacidade racional”, escreveu Humberto Maturana. Apenas a razão não basta para atravessar os dias; é preciso ordenar a vida emocional. E ordenar não significa reprimir, conter ou colocar tudo em caixas fechadas — talvez seja o contrário disso. Os rituais ajudam exatamente porque criam pausas. Pausas para digerir o que vivemos. Dormir, sonhar, apreciar arte, conversar com amigos, fazer análise: são instrumentos para manter o espírito respirando por dentro.
Mas esse trabalho não é só individual. Sempre houve momentos sociais que nos ajudavam a marcar o tempo, dar nome, fechar ciclos. E aqui no Brasil essa marcação de dezembro tem uma força imensa. Temos Black Friday (cuja importação sem o Dia de Ação de Graças eu nunca entendi), Natal, Réveillon. Temos o fechamento do ano fiscal, o planejamento do próximo, a tentativa de empurrar tudo para dentro de um calendário já saturado. Às vezes parece que não é o ano que termina, mas o mundo.
No entanto, talvez seja justamente essa turbulência, quase insuportável, que nos falta ao longo dos outros meses. A clareza de que algo acaba. A chance de reconhecer um limite, ainda que arbitrário, num tempo que insiste em se arrastar contínuo, liso, sem bordas. Dezembro chega para lembrar que, apesar de tudo, ainda sabemos encerrar. E é isso que nos permite começar de novo.





