“Saúde, a gente só valoriza quando não tem.”
Esse é um daqueles ditos populares que trazem consigo uma profunda sabedoria, servida de maneira simples e digesta. Justamente por ser colocada de forma tão fácil de entender, nem sempre é apreciada em todas as suas camadas. Além do significado óbvio, manifesto nas palavras, vale pensar nas suas consequências. Quando a saúde falta — ou quando precisamos conviver com algum tipo de dor — o que realmente perdemos é a capacidade de lidar com as coisas simples da vida.
Às vezes, parece que o sentido da existência está nas grandes conquistas: a promoção no trabalho, o salário melhor, o contrato que muda a vida, prêmios, casamentos, separações, medalhas, viagens, mudanças – esses marcos que usamos para narrar a epopeia da vida. É claro que precisamos de saúde para fazer tudo isso. Mas é a doença que nos faz valorizar outras coisas: levantar e sentar sem dor, caminhar até o café mais próximo, passear no parque, sentar num banco da praça e apenas observar o movimento. Nada que pareça digno de ser cantado por músicos internacionais ou exibido na telona – errado!
John Lennon canta o cotidiano em Watching the Wheels (Assistindo às rodas): “I’m just sitting here watching the wheels go round and round” (“só estou aqui sentado observando as rodas girarem e girarem”). Ao escutar essa canção, é fácil imaginá-lo sentado, observando os carros passarem pelo trânsito de Nova York. No cinema, um belo exemplo é Dias Perfeitos, filme que mostra — sim, mostra, não conta — o cotidiano de um zelador de banheiros públicos em Tóquio. É um filme delicado, indicado ao Oscar de melhor filme internacional em 2024 — e disponível em streaming. Sim, o dia a dia pode concorrer ao Oscar.
Nosso querido Belchior também traduziu em melodia o quanto o cotidiano pode nos aproximar do metafísico: “A minha alucinação é suportar o dia a dia / e meu delírio é experiência com coisas reais.”
Isso não quer dizer que as rotinas banais sejam melhores — nem melhores, nem piores — do que os momentos grandiosos. Até porque as rotinas podem facilmente se transformar em fuga das vivências mais intensas. Mas talvez seja possível sintetizar a simplicidade e o saber no sabor de uma generosa garfada de arroz com feijão.




