O Panteão é uma das obras arquitetônicas mais impressionantes e cheias de significados de Paris. Foi construído para ser uma igreja, deixou de ser, voltou a ser e, hoje, tenta sintetizar o que é a França. Religião, reino, império e república se condensam ali numa espécie de colcha de retalhos em três dimensões.
Um mausoléu destinado a grandes personagens da história francesa — inicialmente aos que contribuíram com a Revolução, mas que acabou abrigando também estrangeiros que ajudaram, de algum modo, a construir a França, como Marie Curie e o casal Missak e Mélinée Manouchian. Voltaire e Rousseau estão frente a frente em destaque, como se ainda discutissem sobre os ideais que moldaram a república.
Aparentemente, só no lado de lá eles pararam de se provocar, já que em vida pareciam não se suportar. Vejo com certo otimismo as disputas entre ambos — heranças de um saudável jogo democrático entre concepções diferentes de mundo.
Além de renderem boas anedotas: quando Rousseau publicou o seu clássico Sobre a origem da desigualdade entre os homens, Voltaire lhe escreveu uma carta “amistosa”, dizendo que ninguém havia sido tão convincente ao tentar fazer os homens virarem animais, e que, durante a leitura, sentira “um grande desejo de andar de quatro”. Rousseau respondeu que a vida nas cidades, de fato, poderia fazer muitos invejarem uma vaca pastando no campo.
Aliás, quem nunca, no corre-corre urbano, se perguntou por que algum ancestral resolveu descer das árvores e complicar tanto a existência? Em outras horas, nos encantamos com a sofisticação das artes, da gastronomia, da tecnologia. É um jogo dual, e precisamos aprender a nos divertir com ele.
Somos todos como um Panteão: tentando reconciliar nossos heróis internos entre si — e também com nossos vilões. Freud escreveu muito sobre a ambivalência. Antes fôssemos dois. Somos muitos, e cada um de nós abriga um teatro inteiro. Um teatro que, quando bem iluminado, pode ser lindo no seu jogo de luz e sombra.




