Visitei em Madrid a exposição Desenfocado: Otra visión del arte, no Museu CaixaForum. Pinturas, esculturas, fotos e outras formas de arte que brincavam com bordas pouco estabelecidas. Havia ali algo que me acompanhou por toda a viagem à Espanha: a ideia de que ver é sempre um ato incompleto. O olhar, por mais atento que seja, nunca dá conta de tudo. Há sempre algo que escapa – um reflexo, uma sombra, um som.
Foi assim também nos vinhedos, nas caves, nas bodegas que visitei. Eu tirava fotos, anotava detalhes, provava vinhos e tentava capturar o instante. Fiz até alguns ensaios de desenho retratando o rosto de um enólogo, paisagens, adegas. Tentativas frustradas de eternizar os aromas, sabores, cores e emoções de cada momento. Mas nada — nem o clique, nem o papel, nem a memória — conseguia guardar o que realmente importava: o som dos sinos de uma igreja perdida entre colinas, o cheiro do mosto ainda em fermentação, o olhar silencioso de um enólogo ao servir o vinho a que tanto se dedicou.
A exposição dizia, nas entrelinhas, que o foco é uma ilusão. Que talvez o essencial da vida esteja justamente nas bordas do quadro — nas partes que ficam borradas, fora de enquadramento. O mesmo vale para o vinho: por mais que o estudemos, que o descrevamos em notas e fichas, há sempre algo indizível, uma emoção que escapa à técnica.
A vitivinicultura espanhola, com sua diversidade de paisagens e estilos, é uma metáfora perfeita para isso. Por mais que a gente prove tudo — Jerez, Rioja, Priorat, Ribeira del Duero, Rías Baixas, Cava —, o país continua maior do que o nosso paladar. Assim como a vida, que nunca cabe inteira na taça.
Toda foto é um fracasso bonito – porque o que a gente quer guardar é o que só se sente estando lá. Talvez o segredo não seja tentar capturar ou fixar, mas deixar-se atravessar e deixar fluir. E aceitar que o que se vive de verdade não se enquadra, não se explica e nunca se repete — por mais que inconscientemente insistamos tanto nas repetições.





