O inverno me deixa mais saudosista. Pela segunda semana seguida, me pego pensando nas casas dos meus avós ao sentar para escrever a crônica. Deve ser esse frio que entra pelos ossos e pela memória. Caminhando pelo centro, lembrei do método infalível dos meus pais para garantir um “vale night” nos anos da minha primeira infância: me deixavam na casa dos avós. As experiências eram completamente diferentes entre os lados paterno e materno, mas igualmente marcantes.
Na vó Carmen, eu chegava tímido, quase mudo. Ia direto para a prateleira de livros que separava a sala de estar da de jantar. Escolhia um volume colorido de contos infantis e entregava para ela. A da Rapunzel era minha preferida. Deitava com a cabeça em seu colo e escutava sua voz pausada. No começo, ficava em silêncio. Aos poucos, me soltava, fazia perguntas, ria. Quando a novela começava, já estávamos conversando fluentemente.
Era o momento em que o vô Eloy largava o controle da TV e ia à cozinha. No sábado à noite, ele começava a preparar o peixe do domingo. Bagre, na maioria das vezes. Eu o acompanhava curioso, ele brincava simulando que o peixe nadava no ar, depois começava a temperar, explicando coisas que hoje já não lembro, mas que na época pareciam mágicas. Quando voltávamos para a sala, eu já me sentia em casa. Empilhava almofadas e pulava do sofá como se fosse um parque de diversões. Até a hora do pijama e da cama.
Já na casa do nonno, a atmosfera era outra. Depois do jantar, a casa entrava em um silêncio respeitoso. O barulho do dia dava lugar a um sossego quase ritual. A nonna assistia sua novela com as pernas cobertas. As tias se recolhiam. E eu, pequeno e curioso, acompanhava o nonno até o fogão a lenha. Sentávamos lado a lado, petiscando pinhões torrados na chapa. A TV fazia um som de fundo, mas o que marcava a noite era o estalo da lenha queimando. Aquele crepitar quente e constante, como se o tempo ali se diluísse entre uma memória e outra. Às vezes ele contava histórias antigas, outras vezes apenas olhava o fogo. Mas sempre havia afeto — que nem precisava ser dito.
A neblina lá fora reduz a vontade de vida social. Mas aumenta a de se recolher na lembrança dos que já nos aqueceram de tantas formas. Nessas noites de inverno, talvez a memória seja mesmo a nossa maior lareira.



