Há uma linha muito tênue entre a comédia e a tragédia. Às vezes, basta um pequeno tropeço para atravessá-la. O problema é que, quando o tropeço é nosso, a graça costuma demorar um pouco para aparecer.
A literatura sabe disso há muito tempo. O trágico e o cômico caminham lado a lado, trocando de lugar conforme o olhar de quem conta a história. Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, nos faz pensar sobre o peso e a leveza da existência. Há acontecimentos que, na hora, parecem uma catástrofe. Depois, viram histórias que contamos rindo.
Eu mesma tenho algumas.
Certa vez, fui ao supermercado de carro, depois caminhei até o centro e, na hora de voltar, descobri uma pequena falha no meu planejamento: não fazia a menor ideia de onde havia estacionado. Andei de um lado para outro, procurando o carro como quem tenta descobrir uma sombra no escuro. Naquele momento, não achei graça nenhuma.
Em outra ocasião, saí de casa calçando um par de botas. Até aí, tudo normal. Acontece que, em um pé, calcei a azul-marinha e, no outro, a preta. E o pior: os saltos tinham alturas diferentes. Só percebi quando já estava andando. Passei algumas quadras mancando, tentando convencer a mim mesma de que ninguém estava reparando. Naturalmente, todos estavam.
Mas a campeã aconteceu numa solenidade em que eu receberia um prêmio. Estava com uma bela blusa preta, de tecido transparente. Só um detalhe: eu a vestira do avesso. As etiquetas brancas apareciam, muito brancas, contra o preto. Impossível que ninguém percebesse. E eu, orgulhosa, recebendo o prêmio, enquanto minhas etiquetas faziam uma participação especial na cerimônia.
Também já aconteceu de eu estar contando uma história em público e, de repente, o texto simplesmente desaparecer da minha cabeça. Nada. Branco total. Naquele instante, não encontrei nenhuma graça na situação. Hoje encontro. Na época, aquilo me acabou.
Talvez seja esse o segredo do riso: o tempo transforma pequenos desastres em boas histórias. A vergonha passa. O constrangimento passa. Até a tragédia, quando não é tragédia de verdade, pode ganhar outro nome depois de algum tempo.
E o que fica? A história. E, se tivermos sorte, uma boa gargalhada cada vez que nos lembramos dela.
Somos excelentes conselheiros para os outros. Sabemos quando alguém deve ir embora, ficar, perdoar ou pensar melhor antes de fazer uma bobagem. Até que a vida resolve nos colocar no lugar do personagem.
Aí aprendemos, na própria pele.
E descobrimos que, às vezes, o melhor que podemos fazer diante de um desastre é sobreviver a ele. Depois, é só escrever.


