Muito antes de as redes sociais criarem frases de efeito, o povo brasileiro já carregava consigo uma coleção de palavras lapidadas pelo tempo. Nos ditos, provérbios e expressões que atravessam gerações vivem a memória, o humor, a ironia e a sabedoria de um povo que aprendeu a transformar a experiência em linguagem. Basta prestar atenção às conversas do dia a dia para constatar que elas continuam vivíssimas. Sem perceber, acertamos na mosca, colocamos o carro na frente dos bois, fazemos tempestade em copo d’água, procuramos pelo em ovo, metemos os pés pelas mãos ou ficamos com uma pulga atrás da orelha. Esses ditos são verdadeiros atalhos da linguagem.
Em vez de longas explicações, bastam poucas palavras para que todos compreendam exatamente o que queremos dizer. É como se a língua, sábia e bem-humorada, tivesse aprendido a economizar fôlego. O curioso é que ninguém vê bois puxando carros, quase ninguém procura pelos em ovos, e, ainda assim, entendemos perfeitamente o sentido dessas imagens. A lógica não está na cena, mas na experiência humana que ela traduz. Há dias em que acordamos com a corda toda e outros em que parece que o caldo entornou. Às vezes, tentamos tapar o sol com a peneira; em outras, percebemos que quem semeia vento colhe tempestade. Há quem viva pisando em ovos, enquanto outros preferem chutar o balde, mesmo sabendo que depois precisarão juntar os cacos.
E assim vamos levando a vida, ora com a cabeça nas nuvens, ora com os pés no chão. Quando a coisa aperta, procuramos uma luz no fim do túnel, mas nem sempre adianta acender uma vela para cada santo. Há situações em que é preciso engolir sapo, embora ninguém goste de ficar com a boca cheia de anfíbios.
Também há quem prometa mundos e fundos e que, de repente, descobre que não tem nem onde guardar tanta promessa. E aquele que fala pelos cotovelos, cedo ou tarde, pode acabar colocando os pés pelas mãos. Político também tem seus ditos. Promete que “agora vai”, garante que “é só uma questão de tempo” e, quando o tempo passa, explica que “é preciso ter paciência”.
Pois é... A vida é mesmo uma coleção de ditos: cada dia traz seu quinhão de altos e baixos, seus tropeços e recomeços. E, quando tudo parece dar errado, resta respirar fundo, levantar a poeira e seguir em frente, porque, como diz o povo, depois da tempestade vem a bonança. Tomara que venha logo, porque ninguém merece ficar esperando com água pelo pescoço.
E tenho dito.





