Dias atrás, na volta de uma viagem, percebi uma coisa que talvez todos já tenhamos experimentado alguma vez: apesar de a distância ser exatamente a mesma, a ida e a volta parecem não ter o mesmo tempo.
Na ida, a estrada parecia mais comprida. Havia a expectativa do encontro, o compromisso marcado, a paisagem passando pela janela e aquela pergunta inevitável: “Ainda falta muito?”. O destino estava à frente, e o tempo parecia caminhar devagar.
Na volta, tudo mudou. A mesma estrada, as mesmas curvas, os mesmos lugares, a mesma distância. E, no entanto, parecia menor. De repente, já estávamos chegando.
Existe até um nome para essa sensação: o efeito da viagem de retorno. O caminho conhecido parece mais curto porque já não precisamos prestar tanta atenção a ele. Na ida, descobrimos; na volta, reconhecemos.
Talvez seja por isso que certas coisas da vida também ganham velocidade quando olhamos para trás. A infância, que um dia pareceu interminável, hoje cabe em algumas fotografias. Os anos, que um dia pareciam ter todo o tempo do mundo, agora passam pela janela feito paisagem.
Na ida, a vida é feita de expectativas. Há sempre um lugar a alcançar, alguma coisa a conquistar, uma novidade esperando adiante. Na volta, carregamos histórias. Já conhecemos algumas curvas, sabemos onde desacelerar, onde a vida pede cuidado. Aprendemos que nem todo trecho precisa ser vencido depressa e descobrimos que o caminho não ficou mais curto. Fomos nós que passamos a percorrê-lo de outro jeito.
E há algo de bonito nessa descoberta. Com o tempo, talvez a pressa de chegar dê lugar ao desejo de prestar atenção ao percurso.
Depois dessa viagem, pensei que talvez os livros também sejam assim. Na primeira leitura, demoramos nas páginas, procuramos sentidos, seguimos as palavras como quem percorre uma estrada desconhecida. Quando retomamos um livro conhecido, ele parece menor, não porque tenha mudado, mas porque mudamos. As mesmas palavras nos encontram em momentos diferentes e, a cada leitura, podem dizer algo novo.
A estrada era a mesma. A distância também. Mas o tempo, esse misterioso companheiro de viagem, parece nunca voltar pelo mesmo caminho.

