Não foi a primeira vez que o fogo tentou apagar a memória. Em diferentes partes do mundo, igrejas, templos, museus e prédios históricos já foram consumidos pelas chamas por acidentes, abandono ou vandalismo. Quando a Catedral de Notre-Dame pegou fogo diante dos olhos do mundo, parecia impossível imaginar novamente sua beleza erguida entre vitrais e sinos. E, no entanto, ela renasceu. Talvez porque a humanidade insista em reconstruir aquilo que guarda sua alma.
Em meio às cinzas, quase sempre permanece alguma coisa: uma imagem preservada, um altar, uma pintura, um detalhe que resiste. Como aconteceu agora com a Igreja Nossa Senhora de Lourdes, na cidade de Flores da Cunha.
A fumaça tomou conta do céu. As chamas avançaram sobre anos de história. E, no entanto, entre os escombros, algumas imagens foram recuperadas quase intactas. As imagens de Nossa Senhora de Lourdes, do Senhor morto e outras peças sacras foram salvas do fogo como quem atravessa a destruição carregando alguma espécie de permanência. Não é difícil entender por que tanta gente chama isso de milagre.
Meu avô paterno, Ernesto Coin, ajudou na construção do altar, junto de tantas outras mãos da comunidade. Homens simples, acostumados ao trabalho duro, talvez jamais imaginassem que décadas depois aquilo que ajudaram a erguer faria parte tão profunda da alma da cidade. O altar permaneceu intacto. E há algo de profundamente simbólico nisso. Como se o fogo tivesse encontrado um limite diante daquilo que foi construído coletivamente, com fé e permanência.
Meu pai, tios e primos carregaram a vida inteira a devoção por aquela igreja. E como eles, tantas famílias cresceram entrando naquele templo pela passarela de luz, atravessando suas portas como quem entrava também numa memória comum. Ali estavam os batizados, casamentos, as velas acesas, os cantos, os encontros depois da missa, os rostos conhecidos de uma cidade inteira.
Quando uma igreja assim queima, não é apenas um prédio que se perde. É um lugar onde as pessoas guardavam parte de si mesmas. E talvez seja justamente agora que outra construção comece.
Diante da destruição, a comunidade se une para reerguer a igreja. E talvez essa seja a imagem mais bonita de todas: perceber que um templo não vive apenas nas pedras, nos bancos ou nas paredes. Ele vive nas pessoas que se recusam a abandonar aquilo que as une.
O fogo levou a madeira. Levou parte do teto e da história material daquele lugar. Mas não levou a fé coletiva. Não levou as lembranças. Não levou as mãos antigas que ajudaram a construir. Nem as novas mãos que agora começam, lentamente, a reconstruir. Há coisas que o fogo não consegue destruir, porque a arte e a memória às vezes aprendem a sobreviver até das cinzas.


