Há frases que atravessam os anos antes de fazer sentido. “Quando tiver filhos, vai saber”, diziam. Talvez viessem de outra lógica, de outra maneira de olhar a vida. Ainda assim, a frase ficou. Por muito tempo, pensei que ela desenhava uma espécie de fronteira invisível: de um lado, quem saberia; do outro, quem não. Será?
Hoje, reconheço: eram gestos em direção a algo que, na época, eu não conseguia nomear. Talvez nunca tenha sido sobre o que a frase afirmava, mas sobre o que tentava de tocar. O tempo fez o que sabe fazer: deu espessura às palavras. O que antes parecia apenas frase tornou-se presença. Não como eu gostaria, mas como é possível. O entendimento veio aos poucos. Não necessariamente pela maternidade, mas pela própria vida, que ensina mesmo quando a gente não percebe.
O Dia das Mães chega todos os anos com vitrines temáticas, mensagens prontas e convites à celebração. Mas a data, que parece simples, é um território delicado. Para alguns, é encontro. Para outros, ausência. Para muitos, uma mistura difícil de nomear.
Há quem sinta a dor de quem partiu. Há quem carregue o silêncio de uma mãe que nunca esteve presente. Há histórias atravessadas por distâncias, rupturas, desencontros. E há, também, mulheres que não tiveram filhos, por escolha ou circunstância, e que, ainda assim, são tocadas por esse dia como se houvesse uma única forma de sentir.
Talvez o desconforto venha daí: o calendário tenta organizar o afeto, mas o afeto não obedece. Cada relação tem sua própria linguagem, suas luzes e sombras. Mesmo assim, algo insiste em ser dito, ainda que de forma incompleta.
Apesar de tudo, algumas marcas permanecem: nos gestos que repetimos sem perceber, nas palavras que escapam, na maneira de cuidar. Há um legado que não se anuncia, mas se reconhece.
Quanto a mim, fico com as frases que atravessaram o tempo. Não pelo que diziam ao pé da letra, mas pelo que tentavam alcançar. Levei anos para entender que nem tudo era sobre filhos. Era, talvez, sobre aquilo que insiste, mesmo sem nome. Sobre o que permanece nos gestos e na maneira de cuidar. E que, ainda assim, pede forma. Pede voz. Pede, quem sabe, um modo de dizer amor.


