A Páscoa passou, mas as cenas permanecem.
No corredor do shopping, a criança abraça um ovo maior que o braço. Não sabe ler, mas reconhece o preço no rosto da mãe: um segundo de silêncio, o cálculo, a frase — depois a gente vê, filha. O totem pisca: leve dois, pague um. A promessa é urgente.
Mais adiante, o coelho distribui abraços com hora marcada. Há fila para o afeto. O gesto se repete: braços abertos, felicidade ensaiada. Quando a câmera desliga, o abraço termina.
No supermercado, ovos pendem como uma safra de plástico e açúcar. Um casal não discute o sentido da data, mas o limite do cartão. “Esse dá, aquele não.” A conta decide o afeto.
No semáforo, o tempo abre e fecha como uma ferida breve. Um menino equilibra caixas de bala. Um carro para. O vidro desce. Uma moeda. Nenhum olhar. O sinal abre. O fluxo engole.
Em casa, há chocolate, fotos, frases suficientes. “Tradição”, alguém diz. “Família”, outro completa.
A televisão atravessa a conversa.
A data passa como um visitante que não fica.
Talvez seja isso: desaprendemos a demorar. E, sem demora, não há travessia.
A ressurreição não acontece onde tudo permanece intacto. Ela pede ruptura, o que não controlamos, o que não se recompõe rápido. Não cabe no gesto ensaiado.
Mas nós a reduzimos.
O ovo, que já anunciou vida, agora anuncia parcelamento. O simbólico circula como embalagem: bonito, leve, descartável.
Não é o chocolate. É o que fizemos com aquilo que ele tentava lembrar.
No instante seguinte, tudo se repõe. Tudo se substitui. Nada permanece tempo suficiente para marcar.
E, ainda assim, algo não desaparece.
Fica à margem, onde a falta permanece aberta. É aí que algo começa: não como retorno, nem como reparo, mas como aquilo que insiste em permanecer vivo.
A ressurreição não cobre a falta. Ela a atravessa. E, às vezes, basta um gesto não previsto, um olhar que se sustenta, um silêncio que não é interrompido. Não resolve. Não completa, mas abre.
E por essa abertura, por mínima que seja, a vida pode entrar de novo.



