Chamam de nova ordem mundial, mas a palavra “ordem” já não se sustenta sobre o que vemos: tudo escapa, desliza, não se deixa organizar por inteiro.
Em um momento da história, acreditou-se em um mundo mais nítido, como se as forças finalmente tivessem encontrado um eixo. Mas o que veio não foi um centro, foi uma dispersão. Um campo de vetores, todos ativos, todos urgentes, ao mesmo tempo.
A guerra entre Rússia e Ucrânia, os Estados Unidos e Israel contra o Irã, a disputa constante entre Estados Unidos e China; tudo isso já não parece episódio, mas permanência. Um ruído de fundo que não cessa. E, no entanto, o mundo ainda funciona.
Os mercados abrem, os aviões decolam, as mensagens chegam. Há sistemas operando com precisão quase invisível. Isso é ordem. Mas há também uma sensação difusa de desalinho, como se o sentido tivesse se desprendido do funcionamento. Isso é desordem.
O filósofo Byung-Chul Han sugere que não vivemos sob falta, mas sob excesso. E talvez seja isso que nos desoriente: não é o vazio que ameaça, mas a saturação. Informação demais, versões demais, acontecimentos que já não se substituem, apenas se acumulam.
Talvez, então, a chamada “nova ordem mundial” não seja ordem nem desordem, mas uma coexistência instável entre ambas. Uma engrenagem que gira sem centro, uma estrutura que funciona sem convencer. Como uma casa onde tudo está no lugar e, ainda assim, algo não encaixa.
Há dias em que a realidade parece uma superfície contínua, sem profundidade, onde as guerras e as rotinas dividem o mesmo plano. Alguém atravessa a rua, compra pão, responde a uma mensagem atrasada enquanto, em outro ponto do mundo, uma fronteira se rompe, um discurso incendeia, uma decisão invisível redesenha o futuro.
Talvez o mais inquietante não seja a desordem em si, mas o fato de ela já não se anunciar como ruptura. Ela se dilui na paisagem, torna-se hábito, quase uma forma de normalidade.
E seguimos organizando pequenas coisas, sustentando gestos mínimos, tentando dar contorno ao que não se deixa conter. Talvez a pergunta permaneça não por falta de resposta, mas porque o mundo já não cabe em nenhuma que seja inteira.
Ordem ou desordem? Talvez, agora, essa diferença tenha deixado de nos orientar.



