Há um paralelo tentador e perigoso entre os “intocáveis” do cinema e os “intocáveis” da política. À primeira vista, a palavra parece a mesma. Mas o que ela guarda por dentro muda de lugar como quem muda de pele.
No filme The Untouchables, os “intocáveis” são poucos, quase improváveis. Liderados por Eliot Ness, recusam a lógica do sistema corrompido por Al Capone. Não se vendem, não se dobram, não se deixam desviar. São chamados assim porque não podem ser tocados pela corrupção. Há, neles, uma espécie de dureza ética, uma linha invisível que não se cruza.
Quando essa palavra atravessa a fronteira e chega à política, especialmente a brasileira, ela sofre um deslocamento silencioso. Continua a soar forte, mas passa a significar quase o contrário. Os “intocáveis” deixam de ser os que resistem e passam a ser os que escapam. Aqueles que pairam acima da lei, que atravessam escândalos sem consequências, protegidos por redes de influência, acordos tácitos e engrenagens que não aparecem.
No cinema, o “intocável” é o incorruptível. Na política, muitas vezes, é o intangível. E essa inversão diz mais do que parece.
Porque no cinema há sempre um inimigo identificável, um fio narrativo que conduz ao desfecho. A justiça pode tardar, mas chega ou, pelo menos, nos é prometida. Já na vida pública, os contornos se desfazem. Quem hoje combate, amanhã pode ser acusado. Quem hoje parece inabalável, amanhã desaparece. Não há roteiro. Há camadas, sobreposições, zonas de sombra.
Talvez, então, a pergunta mais honesta não seja onde estão os “intocáveis”, mas quem deveria ser. A lei deveria ser intocável? A ética pública? Ou seguimos aceitando que certas figuras se coloquem acima de ambas, como se ocupassem um território onde a responsabilidade não alcança?
O cinema nos oferece uma fantasia moral reconfortante: a de que alguns permanecem limpos, mesmo cercados pelo caos. A realidade, porém, insiste em outro enredo. Aqui, manter-se íntegro não é apenas difícil — muitas vezes é um risco. E talvez o verdadeiro “intocável”, hoje, seja justamente aquele que ainda se deixa tocar pela própria consciência.
