Dizem por aí: não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. É o eco da voz popular, a força de um velho provérbio. Digo isso com a tranquilidade de quem afirma não acreditar em fantasmas, embora saiba exatamente em que ponto da casa o assoalho range à noite. Não é crença. É convivência.
As bruxas nunca exigiram fé, exigiram atenção. Sempre estiveram menos interessadas em feitiços do que em perceber o que os outros ignoram. Aparecem disfarçadas: às vezes são avós que benzem crianças com dor de crescimento, vizinhas que sabem da chuva antes da previsão, mulheres que entendem o corpo como quem lê um mapa antigo. Não usam chapéu pontudo nem vassoura. Usam silêncio. E um olhar que demora, como se estivesse medindo o mundo por dentro.
A descrença é uma forma educada de defesa. Não acreditar em bruxas protege do incômodo de admitir que existem saberes que não cabem nem na régua da ciência nem no exagero da fé. A bruxa habita esse intervalo: não promete milagres, mas oferece entendimento; não explica tudo, mas quase sempre sabe onde dói.
Durante séculos, chamaram de bruxa toda mulher que pensava sozinha, curava sem autorização ou falava quando devia calar. Bruxa era quem escapava da medida do mundo. Talvez por isso tenham sido queimadas: não pelo que faziam, mas pelo que lembravam, de que o conhecimento também nasce da experiência, da escuta, do corpo atravessado pelo tempo.
A literatura brasileira está repleta dessas “bruxas” que nunca precisaram levantar voo para transformar o mundo. Penso, por exemplo, em Capitu, de Dom Casmurro. Seus “olhos de ressaca” assustam porque veem demais. Talvez a tenham chamado de dissimulada porque não suportavam uma mulher capaz de pensar por conta própria num mundo que esperava submissão.
Quem sabe as bruxas de hoje carreguem a lucidez de quem já entendeu o jogo. Não são feitas apenas de resistência, mas de consciência. Nomeiam o que antes era silêncio, recusam o papel estreito que lhes ofereceram. Sabem cair e reorganizar o próprio chão. Criam redes onde havia solidão. Não querem ser maiores do que ninguém, mas também não aceitam ser menores do que são.
No fundo, o que sempre incomodou não foi magia alguma. Foi a lucidez de mulheres que aprenderam a reconhecer os sinais do mundo. E que, mesmo em silêncio, nunca deixaram de existir.




