Eu era criança quando vivi algo que nunca soube explicar. Não era exatamente um sonho, nem imaginação, embora tivesse a mesma matéria delicada dos dois. Era uma travessia, um estar dentro e fora ao mesmo tempo. Tão real que deixou marcas: exames, consultas, idas ao hospital, como se fosse preciso verificar se o que me atravessava havia ferido alguma parte do cérebro.
No dia em que ouvi alguém dizer que somos feitos de poeira de estrela, fui tomada por uma espécie de reconhecimento. Disseram que elas, assim como nós, nascem, crescem e morrem. Simples assim. Depois disso, passei a olhar o céu com outra intimidade. Não apenas observava: eu conversava com aquelas luzes distantes.
Cresci gostando de filmes de mistério e de suspense, daqueles que empurram a imaginação um pouco além. Também cresci sem medo dos mortos: velórios, cemitérios, perguntas feitas sem proteção. Tudo fazia parte. A gente observava, perguntava e seguia.
Talvez por isso, um dia, imaginei fios invisíveis saindo da cabeça das pessoas. Como se estivéssemos ligados por algo que não se vê, mas que atravessa. Como se uma parte de nós passasse silenciosamente de um corpo a outro.
Anos depois, no cinema, assistindo a Avatar, me emocionei como tantos. Mas havia algo diferente naquela emoção: ela devolvia a lembrança dessas conexões, como se, mesmo na ficção, aquilo também habitasse a imaginação de outros. E, naquele instante, não me senti tão diferente.
Hoje, a sensação voltou. Pensei que talvez o corpo nunca esteja completamente só. Lembrei da ideia de que o cérebro é uma rede viva, atravessada pelo que toca e pelo que encontra. E então entendi que isso começa muito antes de nós.
Há ferro no nosso sangue, o mesmo que nasceu no interior das estrelas. E, de algum modo, isso sempre esteve aqui: nas panelas antigas, no cuidado das mães e avós, nesse saber que não precisava de explicação.
Talvez por isso aquelas imagens — os fios, a cabeça, a sensação de ligação — não fossem apenas invenção. Talvez fossem um modo de o corpo lembrar que nunca esteve separado do resto.
E fez sentido, em silêncio: somos poeira de estrela. Não como metáfora distante, mas como continuidade. Crescer, talvez, seja apenas reconhecer aquilo que sempre soubemos.


