Há acontecimentos que não pedem comentário, pedem silêncio. Ainda assim, o silêncio também falha. Minha indignação soma-se à de centenas de brasileiros. O que ainda se pode dizer, além do que já foi dito, sobre um crime tão perverso? Pergunto-me, então, em que momento os jovens envolvidos no assassinato do cão Orelha perderam o coração? Não falo de um órgão romântico, desses que aparecem em cartões e promessas. Falo do músculo invisível que dói diante da dor alheia, que recua diante do sofrimento de um ser indefeso. Em que ponto da vida esse coração deixou de reconhecer o espanto?
Não costuma ser num dia específico. Ninguém acorda cruel de repente. O coração não se perde como se perde uma chave; ele vai sendo esquecido. Primeiro, a dor do outro vira ruído. Depois, vira piada. Mais tarde, espetáculo. Até que o corpo sofrido de um animal, de quem não pode reagir, passe a provocar excitação, riso, sensação de poder. A câmera ligada é parte do ritual. O horror precisa de plateia.
Dizem que a crueldade contra animais é um dos primeiros sinais de algo mais grave. Não é diagnóstico automático, mas é alerta antigo. Onde há prazer na tortura, algo já falhou muito antes. Não faltou infância bonita. Isso é um mito confortável. Faltou cuidado contínuo. Faltou limite. Faltou alguém que dissesse: isso dói, isso é grave, isso tem consequência. Faltou linguagem para nomear o afeto e sobra de silêncio para esconder a violência.
O julgamento coletivo existe, mas é curto. Dura o tempo da indignação, da manchete, do comentário revoltado. Depois, seguimos. Enquanto isso, outros animais seguem sendo maltratados longe das câmeras, outros jovens ensaiam a mesma brutalidade em quintais, estradas, fundos de casa. A crueldade que não viraliza não comove.
É tentador chamar tudo de psicopatia e encerrar o assunto. Assim, o problema fica localizado, quase confortável. Mas talvez o mais perturbador seja perceber que há algo mais difuso em jogo: uma época anestesiada, que confunde dureza com força, ironia com inteligência, indiferença com maturidade. Um mundo que ensina a não sentir e depois se espanta quando o sentimento desaparece.
Existe volta para esses jovens? Para alguns, talvez. Desde que ainda reste culpa, desde que o sofrimento do outro não seja apenas troféu. Mas a pergunta mais incômoda é outra: existe volta para nós, enquanto sociedade, se começarmos a tratar isso como “mais um caso”?
Enquanto ainda doer perguntar onde foi parar o coração, talvez ainda haja algo a ser salvo.





