Eu não desfilei, mas o samba ficou em mim desde a infância, quando eu ainda não sabia o que era Carnaval, mas já aprendia a escutar. Eu não nasci num lugar onde o Carnaval fosse costume. Em casa, fevereiro passava quase como outro mês qualquer. Mas, à noite, havia o som.
Eu morava perto de onde a Escola de Samba Protegidos da Princesa ensaiava. Quando a batucada começava, o samba atravessava paredes e janelas, invadia o quarto escuro e chegava inteiro, mesmo sem que eu pudesse ver nada. O surdo marcava um chão invisível, o tamborim riscava o ar, e eu, pequena demais para estar junto com os ritmistas, escutava de longe, deitada, tentando imaginar a cena.
Queria ir. Queria dançar, pular, fazer parte. Mas o Carnaval ainda não cabia em mim como experiência. Cabia só como desejo. Então eu ficava ali, aprendendo o samba pelo ouvido, repetindo o refrão baixinho, marcando o ritmo com o pé na cama. Enquanto a escola ensaiava, eu também ensaiava sem saber.
O ano inteiro passava nesse compasso. O mesmo samba voltava, insistente, costurando o tempo. Mais tarde, quando ouvi a canção que dizia “em retalhos de cetim eu dormi o ano inteiro”, reconheci aquela menina. Eu dormia embalada pelo som, cercada por um brilho imaginado, como se o samba fosse uma promessa guardada.
A música dizia ainda que ela não desfilou. Eu também não. Nunca atravessei a avenida, nunca vesti fantasia, nunca senti o peso da bateria empurrando o corpo na cadência do samba. Mas estive no ensaio. Estive na escuta. Estive no tempo longo que antecede a festa e quase nunca aparece.
O samba ficou em mim, porque não foi vivido de uma vez. Foi aprendido aos poucos, na infância, no escuro, no longe. Ficou como ficam as coisas que a gente não mostra, mas guarda. Como um retalho de cetim esquecido numa gaveta, ainda brilhando, mesmo depois que o Carnaval passa.
Eu não desfilei. Mas o samba ficou em mim.

