Se tem sol, reclamam do calor. Dizem que não dá para trabalhar, que o asfalto ferve, que a cabeça não funciona. Se chove, reclamam da chuva: molha o sapato, atrasa a vida, estraga o humor. O tempo, ao que tudo indica, erra sempre. Quando acerta, desconfiam.
Há dias em que o céu abre e alguém lamenta a falta de nuvens. Quando fecha, outro alguém sente falta da luz. O vento incomoda quando sopra; a calmaria incomoda quando não sopra. Nada parece na medida. Tudo é demais ou de menos. Nelson Rodrigues diria que a unanimidade é suspeita. E talvez estivesse certo. Vai entender.
Talvez reclamar do tempo seja um jeito de falar de outra coisa. Do cansaço que não passa, da pressa que não anda, da sensação vaga de que o mundo prometeu conforto e entregou instabilidade. O clima vira pretexto: um assunto neutro para um mal-estar que não quer se explicar.
Reclamar do tempo não cria conflito. Não exige posição política, não pede responsabilidade, não cobra solução. É um consenso fácil. Ninguém se ofende quando concordamos que está quente demais ou chovendo fora de hora. O clima não responde, não rebate, não pede réplica.
Enquanto isso, o tempo segue. Chove quando precisa, abre quando dá, muda porque é da sua natureza. Não consulta agenda, não lê previsões emocionais. O erro talvez esteja na expectativa de que o dia combine com o nosso humor, de que o mundo se ajuste ao nosso desconforto interno.
Há quem diga que antigamente o tempo era melhor. Talvez fosse. Ou talvez a memória seja mais gentil que o presente. O passado costuma ter um clima ameno, cuidadosamente editado pela saudade.
No fim, reclamamos porque estamos vivos, sentindo. O corpo reage, a pele acusa, o humor oscila. Reclamar é uma forma de contato com o mundo, ainda que torta. Um comentário rápido para dizer: estou aqui, algo me atravessa. Talvez isso não seja mau humor, mas excesso de lucidez. Nietzsche chamaria de pessimismo. Não como derrota, mas como recusa a se iludir.
O tempo passa. Nós comentamos. Ele muda. Nós reclamamos. E assim seguimos, tentando negociar com o céu aquilo que, no fundo, é conversa nossa com a vida. Vai entender.





