Dona Ernestina dizia “é o fim do mundo” para quase tudo que saía do tamanho aceitável das coisas. Não era tragédia, era régua. Uma régua moral, doméstica, afetiva. Se o preço subia demais, fim do mundo. Se alguém exagerava no tom, na ausência ou na presença: fim do mundo. Se o rádio gritava notícias que não cabiam no café da manhã, fim do mundo também.
Mas o exagero obedecia a uma ordem secreta. Cada coisa tinha seu tamanho. Quando ela ultrapassasse o razoável e ainda insistia, vinha o veredito intermediário: “é o fim da picada”, dito com a testa franzida, como quem já tentou entender, já tentou relevar, e desistiu. E havia o mais curto de todos, o mais definitivo: “é o fim”. Sem complemento, sem drama. Um fim enxuto, desses que encerra o assunto e pedem silêncio.
O curioso é que, depois de decretar qualquer um desses fins, ela seguia. Lavava a louça, regava as plantas, oferecia bolo. O mundo acabava, o exagero era nomeado, mas o gesto continuava. Talvez fosse esse o segredo: nomear o exagero para que ele não tomasse conta da casa inteira.
Talvez o fim aconteça quando algo já não pode continuar do mesmo jeito. Não porque acabou a energia, mas porque perdeu o sentido. O fim acontece quando a forma antiga não dá mais conta da vida que pede passagem. E talvez o erro seja tratar esse ponto de passagem como ponto final.
Dia desses a voz da falecida Dona Ernestina ressurgiu na minha memória enquanto eu acompanhava as notícias: cargos que se protegem, documentos que tentam valer mais que a verdade, estatísticas que chocam e logo são empurradas para o rodapé. Como ela, muita gente não se dá conta da função que exerce. E repete frases prontas, encerra assuntos, declara fins. “É o fim do mundo”, “é o fim da picada”, como se nomear o espanto fosse o suficiente para resolvê-lo.
Assim, o essencial vai sendo adiado, confundem-se ponto final e passagem, autoridade e razão. Talvez o Brasil de hoje ainda more numa casa confortável para poucos, barulhenta de ordens e resistente a mudanças. E talvez o verdadeiro fim, esse que se anuncia, seja o dia em que essa casa deixe de parecer natural.
Hoje, quando tudo parece exagerado de verdade, penso naquela mulher simples e verdadeira. Talvez a gente precise reaprender essa cartilha dos fins falados: não como sentença final, mas como pausa. Porque, enquanto alguém ainda exagera nas palavras para caber o espanto, o mundo não acabou. Ele só está pedindo medida.


