Se eu pudesse ser uma pulga, seria a Pulga Justiceira: discreta, paciente e treinada na arte milenar de causar coceiras na consciência. Mas eu não trabalharia sozinha: teria comigo a Mosca Denunciante, especialista em pousar onde ninguém quer ser visto. Ela zuniria no ouvido dos poderosos como quem anuncia verdades inconvenientes: “Ah, quanta cara de pau bem polida!”
Juntas atacaríamos os “bichos-humanos”: os que distribuem favores como quem espalha migalhas, os magnatas do brilho falso; e, claro, o casal de influenciadores digitais, sempre pronto para ensinar como “viver melhor” enquanto vendem a própria sinceridade em doze vezes no cartão.
Eles vivem no habitat natural da autoexposição. Ele repete frases de gurus como um aplicativo com defeito. Ela sorri para a câmara com a devoção de quem acredita que curtidas podem substituir autoestima. Entre cápsulas motivacionais e filtros angelicais, não resta espaço para a verdade. Seria o lugar perfeito para nós.
Eu me instalaria no blazer dele, ativando coceiras estratégicas: nuca, colarinho. A mosca sobrevoaria o estúdio, pousaria no microfone e decretaria: “Influenciadores, preparem-se para a auditoria alada!”
Ele tropeçaria no ring light e gravaria stories tremidos usando hashtags que não fariam sentindo. Ela tentaria manter o sorriso, mas a vaidade suada não aceita desaforos.
Seria um feito histórico: o dia em que pequenas justiceiras derrubariam gigantes do ego. Finalmente eu, pulga, e minha parceira mosca assumiríamos nosso posto legítimo: fiscalizadoras do ridículo humano.
Eles tentariam nos expulsar. Ela abanaria a mão na minha direção, com a elegância de quem espanta qualquer coisa que não traga engajamento. Ele bateria no suporte, acreditando que esmagar um inseto resolveria o colapso de reputação. Pobres coitados: nós seríamos persistentes. Onde houvesse falsidade, lá estaríamos, zunindo a verdade no ouvido de que faz de tudo para não ouvi-la.
No fim, perceberiam que fama não protege de coceira, culpa ou insetos determinados. Uma pulga e uma mosca podem ser pequenas, mas são implacáveis. Às vezes, a justiça não precisa de martelo, basta um zunido no momento certo e a vaidade mais brilhante começa a coçar.


