Foi numa visita a uma escola que ouvi uma frase que ficou me rondando por dias. Um menino, de olhar curioso, esperou a vez para falar e disse:
— Eu tenho um livro na cabeça.
Não era uma pergunta, nem um desejo. Era uma certeza.
Depois daquele encontro, fiquei pensando que talvez os sonhos de viajar nasçam do mesmo lugar de onde nascem os livros, da vontade de ver o que ainda não conhecemos. Há quem viaje para longe, há quem viaje por dentro. Uns precisam de mapas, outros se guiam pela lembrança ou pelo desejo.
As crianças viajam com uma facilidade que os adultos esquecem. Um pedaço de papel vira avião, um lençol estendido é mar aberto. Elas não perguntam o destino, apenas partem. Talvez porque saibam, intuitivamente, que toda a viagem é uma invenção. Um livro também é assim: quando começamos a escrevê-los, não sabemos onde ele vai dar. O caminho se revela aos poucos, como uma estrada de terra depois da curva. Às vezes há atalhos; às vezes é preciso parar e ouvir o vento antes de seguir.
Pensei em quantos livros moram dentro da gente antes de ganharem palavras, quantas histórias esperam o tempo certo para nascer. Às vezes o livro está pronto, mas o corpo ainda não aprendeu a escrevê-lo. Outras vezes, ele se escreve sozinho, enquanto a gente vive. Mas nem todos conseguem escutá-los. Às vezes o barulho do mundo é maior. Escrever é se deixar levar a um lugar que não existe nos mapas, porque há viagens que só acontecem quando a gente fecha os olhos. Talvez aquele menino, com o livro na cabeça, já soubesse disso: que o mundo cabe inteiro dentro de uma ideia, e que quem escreve ou sonha nunca está parado.
As crianças dizem as coisas mais improváveis e, ao mesmo tempo, mais verdadeiras. José Paulo Paes dizia que elas são os grandes poetas e talvez tenha razão. São elas que ainda veem o mundo pela primeira vez, que inventam nomes, que misturam sonho e realidade sem pedir licença. Vinicius de Moraes, Cecília Meireles e Manuel de Barros também sabiam: a infância é o chão da poesia.
O menino não precisava escrever o livro; bastava imaginá-lo. E, de algum modo, o livro já existia. Talvez por isso os adultos, quando escrevem, estejam apenas tentando lembrar. Lembrar o tempo em que as palavras nasciam sozinhas. Escrever é, quem sabe, um jeito de voltar a ver o mundo com olhos de descoberta. As crianças nos ensinam que toda criação começa com um espanto. E é desse espanto que nasce o poema, o livro, a vida reinventada.
Desde então, penso nesse livro invisível que cada um carrega: um livro feito de lembranças, de sonhos, de palavras ainda sem forma. Talvez escrever seja isso: aprender a ouvir o livro que mora na cabeça e deixá-lo encontrar o caminho das mãos.




