Há quem diga que a arte tem prazo. Que depois de certa idade as mãos tremem demais para escrever versos, ou que a voz já não alcança os agudos de antigamente. Mas talvez o que o tempo faça não seja enfraquecer e, sim, afinar.
Eu tenho pensado nisso cada vez mais. Talvez porque a escrita e a música me ensinem a ouvir o tempo de outro jeito. Há artistas que só se revelam quando a pressa se despede. Há escritores que começam tarde, e músicos que, depois de tantos palcos, descobrem sons que antes não cabiam entre os compassos. O tempo não rouba talento; ele muda o tom.
Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 70 e poucos. Elza Soares reinventou sua voz até o último sopro. E quantas outras criadoras seguem compondo a vida, mesmo quando o mundo insiste em chamá-las de superadas? A verdade é que o tempo, quando bem-vivido, compõe junto.
O etarismo tem o dom de se mascarar de elogio. “Você está ótima.” “Nem aparenta sua idade.”. São frases que soam gentis, mas carregam a surpresa de quem acha que criar, sonhar ou existir depois dos sessenta é exceção. Só que quem cria começa de novo a cada gesto; cada palavra, cada acorde é começo outra vez.
Na literatura, na música e na maior parte das artes, a juventude é sempre celebrada, como se só ela tivesse o direito de inventar. Mas o que seria da arte sem o amadurecimento? O poema que antes gritava, agora escuta. A canção que antes dançava, agora embala. A vida, afinal, é uma partitura que se reescreve.
Dias atrás, assisti ao show da banda Lobo da Estepe. No palco, músicos de 70 e tantos tocavam com a energia de garotos e o rock rolou solto. Eu os vi e pensei: a arte é o que ainda vibra quando o corpo precisa parar. Talvez por isso, as guitarras não envelhecem; elas lembram. E, de algum modo, lembrando, também fazem a gente rejuvenescer um pouco.
O segredo, quem sabe, seja continuar desafinando um pouco, esquecendo palavras, mas com o coração aberto para as melodias que ainda virão. Porque a arte não envelhece. Ela só muda de ritmo.
E eu sigo aprendendo a ouvir o tempo, esse velho maestro que me lembra, a cada compasso, que a criação não tem idade: tem respiro, tem memória, tem coragem. É a nossa maneira mais bonita de continuar, mesmo quando o mundo parece não nos escutar.




