Segundo a Associação Nacional de Livrarias ( ANL), o Rio Grande do Sul conta com aproximadamente 293 livrarias, sendo o terceiro Estado com o maior número, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. Por outro lado, um dado chama a atenção: segundo levantamento recente o Estado tem cerca de 6.571 empresas classificadas como farmácias em atividade. Seria um sintoma dos tempos em que o remédio se espalha e o livro, aos poucos, desaparece do cotidiano?
As livrarias estão ficando raras e as bancas de jornal silenciosas. Onde antes vendiam histórias, hoje se empilham comprimidos. Talvez este seja mesmo o tempo da química no lugar da palavra. Um tempo em que as dores da alma buscam alívio imediato.
Livrarias como Sulina, Maneco, Saraiva e Paulinas foram algumas que marcaram época em Caxias. Hoje, em vez disso, o que mais cresce são as farmácias que vendem de tudo. E esse novo formato parece ter um único propósito: atrair clientes a qualquer custo. Viraram uma mistura de mercado de utilidades com balcão de remédios.
Infelizmente, a mesma falta de identidade a gente vê nas bancas-bazar que tomam conta das feiras e eventos literários, que deveriam ser, de fato, feiras de livros. E o que tenho visto em muitos lugares me faz acreditar que está mais do que na hora de existir curadorias obrigatórias para proteger escolas e municípios dos vendedores oportunistas que se passam por livreiros.
Livrarias de verdade fazem uma falta danada. Pouca gente percebe a armadilha de certos comerciantes que dizem precisar vender quinquilharias para manter os livros de pé. Mas nada substitui o prazer de descobrir um autor novo ao acaso, de folhear um título desconhecido e encontrar o remédio que existe nas páginas. As farmácias prometem alívio rápido, mas a leveza e o encantamento não cabem em frascos.
Numa roda de conversa, perguntaram-me se eu acreditava mesmo que a arte podia curar, se os livros, a música, a pintura, a dança, a dramaturgia teria força para ocupar o espaço que os remédios químicos tentam preencher. Respondi que sim, porque a arte, quando genuína, desloca o olhar e reequilibra o que parecia quebrado. Não elimina a dor, mas a torna suportável.
Que abram novas livrarias, que editem bons livros, que nasçam muitos leitores. Sim. Os livros curam, pois, cada página é um remédio sem bula, que a gente pode tomar quantas vezes for preciso. Talvez ainda dê tempo de voltar à velha receita: uma dose diária de leitura, um poema antes de dormir, uma visita ao teatro ou ao museu. É simples assim: pequenas doses de arte para manter o espírito saudável. Porque a arte, quando cura, devolve o sentido das coisas.



