O dia começa igual ao de ontem e, ainda assim, há algo novo em cada instante. Levanto, preparo o café, observo o vapor subindo do líquido quente e penso: quantas vezes já olhei para isso sem realmente ver?
Há quem fuja da repetição como quem foge da morte. Gente que precisa viver de sobressaltos, atropelando o tempo e acabam perdendo o sabor das coisas lentas. Não percebem que o excesso de intensidade também adormece, porque tudo o que é vivido em excesso perde o gosto, até a vida.
E fico pensando que a rotina é uma espécie de anestesia: não dói, mas também não desperta. E a vida, nesse embalo, vai se tornando uma sucessão de pequenos gestos: arrumar a cama, pagar contas, esperar o fim de semana. O caminho de sempre, as ruas de sempre, o mesmo som que já nem se ouve. Mas, às vezes, algo quebra o padrão: o canto de um pássaro, um desconhecido que sorri, uma folha de plátano e sua dança no ar. Esses pequenos desvios lembram que a vida não é apenas o repetido, que a rotina tem fissuras por onde se esconde a surpresa.
Um dia comum, mas meus pensamentos insistiram em bagunçar meu otimismo. Busquei, então, amparo nas páginas de alguns livros que li, como quem busca companhia para conversar sobre a própria pequenez. Milan Kundera me disse que a leveza é insuportável. Talvez por isso sintamos que o tempo passa leve demais para ser sentido e denso demais para ser ignorado. Luis Fernando Verissimo lembrou que a vida acontece um dia após o outro, às vezes tranquila, às vezes caótica, mas nunca parando para pedir permissão. E Clarice Lispector sussurrou que por trás de cada xícara de café existe um universo inteiro de pensamentos não ditos, de sentimentos que não se podem traduzir em palavras
Em resposta a minha melancolia concluo que a rotina não nos envelhece; ao contrário, ela nos sustenta. É nela que moram as pequenas eternidades. Tudo tão simples, tão humano. Talvez a repetição não seja o oposto da vida, mas a sua forma mais discreta de continuar. E, quando percebemos, o tempo já passou. Foi na repetição dos dias que aprendemos, sem saber, o que é permanecer. O complicado vem quando percebemos que o tempo não se repete, mesmo quando os dias parecem iguais.
Cada manhã é um ensaio geral da finitude. A morte se esconde nas entrelinhas do cotidiano: no silêncio do quarto quando a luz se apaga, no prato vazio, no relógio que não para. E, no entanto, é justamente nesses gestos cotidianos que a vida se revela: simples, silenciosa, quase imperceptível. Talvez eu me convença, afinal, de que não é a vida que se complica, mas o modo como a olhamos.


