Na adolescência tive o privilégio de montar um cavalo negro, que chamava de “meu sol escuro”. Era a sensação mais pura de companhia. O coração parecia bater no mesmo compasso dos cascos. A cada trote, o vento me desafiava e a vida se abria sobre o lombo. Havia medo e fascínio: o risco de cair e, ao mesmo tempo, a vertigem, da liberdade, como se o horizonte surgisse de repente diante de mim.
Homens e cavalos se espelham. No campo, o cavalo encontra espaço para correr; na cidade, arrasta carroças e entulhos, assim como o homem, preso ao peso invisível do trabalho. Ambos carregam fardos que não escolheram. Ainda assim, os cavalos guardam um símbolo maior: resistência e potência.
Recordo-me de uma noite, quando, pela janela de um hotel, vislumbrei a sombra de um cavalo livre. A imagem me devolveu lembranças antigas e acendeu reflexões sobre literatura. Foi então que, ao reler Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, aquele eco retornou, brutal e certeiro. A frase soava como desabafo coletivo, condensando vidas diversas num mosaico de ideias. O cavalo, transformado em metáfora, passava a carregar rotinas e expectativas, como se fosse extensão do homem.
Nesse movimento de memória e metáfora, redescobri que a escolha do título do livro vinha dos versos de Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência. Separados no tempo, os dois escritores uniram-se pela mesma imagem: o cavalo como medida da existência — liberdade e sonho, mas também domado pela vida urbana e pela repressão. Cecília e Ruffato mostraram que eles eram muitos cavalos porque sempre fomos muitos nós, coletividades esmagadas pelo poder econômico e pelas desigualdades.
Meu desejo como autora é escrever e compartilhar. Muitas vezes, as ideias surgem fragmentadas, fruto de inquietações diante do mundo. Com paciência e insistência, transformo esses fragmentos em textos que espero, possam dialogar e conquistar leitores. Essa fragmentação, porém, não pertence apenas à escrita, mas na própria vida.
A caminhada humana se assemelha à dos cavalos: fragmentada, ora exaustiva, ora sonhadora. Tanto homens quanto cavalos carregam potência, mas a liberdade se esvai quando o trabalho se transforma em peso contínuo. Força e beleza se confundem com exigência e opressão.
Cecília viu cavalos na coletividade; Ruffato na multidão da cidade. Eu guardo na memória o cavalo negro da adolescência: medo e coragem. Ele é amizade, pacto silencioso. A literatura também é muitos cavalos, histórias e memórias que se entrelaçam à realidade.



