A linguagem nunca é neutra. É sempre disputa. Quem escolhe a palavra decide também quem pode entrar e quem fica de fora. Político que chama imigrante de ameaça faz todo mundo olhar torto; quando chama de trabalhador, vira força que soma. Palavra não é só palavra, é fronteira.
Na minha casa, a língua também era terreno de invenção. Minha mãe gostava de medir o tempo com ditos: se eu demorava na padaria, ria e dizia que eu tinha feito “a viagem do corvo”. Não era só bronca, era afeto disfarçado. Já meu pai voltava do trabalho trazendo o Talian na boca: “Que straco” (cansado, em português). Entre os dois cresci cercada de frases que carregavam mais do que sentido. Eram histórias, saudades e a lembrança de onde a gente vinha.
Hoje, vejo os jovens encurtando palavras nas redes: “vc” no lugar de “você”, “pq” no lugar de “porque”. Sempre aparece alguém para decretar a “morte do português”. Mas não é morte: é vida, é continuidade da oralidade popular, sempre inventiva e resistente. É como ouvir a “vó do Badanha” ou o “quando o Chico chega de baixo”: ditos que parecem fora de lugar, mas guardam ironia, afeto e memória social.
A língua também sabe ser cruel. Criança com sotaque diferente ainda vira motivo de riso. Eu mesma, quando pequena, tinha medo de falar alto ou rir demais, temendo zombaria pelo meu jeito de falar. Aprendi depois, com os livros, que o linguista Marcos Bagno chama isso de preconceito linguístico. Ele mostra que sotaque e gíria são confundidos com falta de inteligência, quando na verdade revelam desigualdades sociais e culturais. No fundo, minha mãe e meu pai já sabiam: ensinar é dar voz, é deixar existir. Mas foi tão forte o temor de ser discriminada pelos colegas que deixei para trás o Talian, e com ele, parte da voz dos meus ancestrais paternos.
Muitas palavras carregam rostos e cheiros, lembranças que nenhuma gramática ensina. É a “bambina” (menina) do pai, a risada escondida na expressão “animal vestido”, dito que minha mãe trouxe dos Campos de Cima da Serra. Cada jeito de falar, cada pronúncia atravessada, é território de pertencimento.
A língua é mais do que código: é identidade, memória, dignidade. Bagno defende que a escola ensine a norma sem esmagar a fala do aluno. Que o estudante aprenda a escrever para o mundo formal, mas sem sentir vergonha de falar como se fala em casa.
No fim, não é só a língua que está em disputa. É a possibilidade de existir sem ser silenciado. Cada “viagem do corvo”, cada frase herdada, cada expressão inventada no corre-corre das ruas é um jeito de resistir, de afirmar presença no mundo.


