Sempre ouvi dizer que agosto era mês do desgosto, mês em que nada floresce e tudo se arrasta. Cresci rodeada por essas frases ditas quase com medo. Era como se o mês inteiro carregasse uma má sorte, uma sucessão de abalos. Como se o país todo, a cada agosto, recordasse que nada é estável por muito tempo.
Talvez não seja só impressão. Agosto se repete como cenário de rupturas, reviravoltas e descompassos. É o mês em que guerras começaram, cartas mudaram rumos, presidentes caíram, esperanças foram ceifadas ou adiadas.
No calendário oficial, é o oitavo mês; no simbólico, ocupa uma brecha estranha — esse intervalo em que o tempo parece hesitar. Não é tão silenciado quanto desejaríamos, nem tão revelado quanto exige o que já vivemos. É nesse tempo carregado de memória e tensão que agora chega mais um peso: uma imposição disfarçada de política comercial. Um castigo calculado, exigindo em troca a rendição de princípios.
Para quem lê a História com olhos bem abertos já sabe — o som de fundo tem sotaque. A colonização deixou os portos, mas não desfez suas costuras. O país segue enredado em bordados alheios — interesses que mudam de nome, mas não de origem.
Muda o século, mudam os rostos, mas a linha continua estrangeira. Agosto não traz desgosto — ele apenas revela, mais uma vez, que a corda nunca se rompe do lado mais forte. Ele chega como chuva que não se escolhe — não cai do céu, vem de fora, carregada de ameaça.
É sempre o mesmo ponto: um que repuxa, limita movimento de quem veste o tecido. O Brasil, nesse corte final, resiste — mas não rasga. Cede onde precisa. Agosto parece lembrar que o nosso tempo é sempre um pouco roubado.
Ainda assim — e talvez justamente por isso — é preciso encontrar onde o pano cede. Onde o fio se desfaz e o ar entra. Nem tudo é aperto. Há dobras onde a vida insiste, espaços minúsculos onde o coração segue batendo, mesmo tenso.
Às vezes, o que uns chamam de medo ou desgosto é justamente o que mais ensina a gostar. À revelia dos presságios, há agostos que trazem vida — como o despertar das cerejeiras, o abraço de um pai, a lembrança de que o tempo também renova. Enquanto o mundo pesa, há quem sinta agosto como sopro — breve, mas suficiente para lembrar que é possível florescer até no solo cansado.
No meu calendário pessoal, agosto não é o mês do desgosto. É o mês em que nasceu meu segundo filho, mês dos pais, mês que carrega a semente da primavera.
Enquanto tantos se encolhem diante de agosto, eu me descubro — porque aprendi que algumas alegrias nascem justamente quando ninguém espera flores.





