Minha biblioteca precisava respirar. A disposição dos livros parecia um pensamento embaralhado: títulos fora de lugar, livros que já não faziam sentido onde estavam. A pilha dos lidos se misturava com os que eu ainda pretendia ler. A primeira reorganização foi emocional: separei os livros que mais me marcaram, aqueles com os quais dialogo até hoje. Uma lógica só minha. Uma espécie de reclassificação afetiva. E os outros? Os outros num meio-termo — nem esquecidos, nem lembrados. Livros que talvez um dia reencontre com outros olhos, em outro tempo. Por ora, repousam ali, silenciosos, esperando sua vez na prateleira.
Estabeleci um prazo: uma semana. Sabia que haveria atrasos — paradas inevitáveis, distrações, escolhas. Impus a mim mesma uma regra: nada de abrir os livros, ler contracapas, examinar as orelhas ou separar os preferidos. A tarefa era simples: tirar o pó. Mas não consegui cumprir.
Mas bastou, sem querer, abrir livros de poemas lidos há tempos para que eu recomeçasse a reler versos anotados nas margens. Reencontrei mulheres que me permitiram mergulhar em sentimentos novos — ou antigos, apenas esquecidos. Descobri em mim aquilo que elas, um dia, derramaram em seus versos. Em Hilda Hilst, reencontrei minha fúria contida; em Emily Dickinson, minha delicadeza enclausurada. Em ambas, redescobri a mulher que ousava sentir demais, mesmo quando calava. O tempo, porém, era curto, e a tarefa ainda pedia continuidade. Retomei a missão, agora decidida: nada de abrir os livros. Segui limpando, catalogando, tentando não me distrair.
No meio da arrumação, um livro desabou da estante com força, como se tivesse algo a dizer. Não era um livro qualquer. Era um daqueles que sabem quando reaparecer. Fiquei sem saber o que fazer. Abri na página que se ofereceu e li. Bastou o primeiro parágrafo para que eu fosse fisgada. Era como um chamado interior: A louca da casa, de Rosa Montero: um desses livros que flertam com a criação e a loucura, com a vida e a escrita.
E desse mergulho brotou um incômodo antigo — daqueles que não têm nome, mas que sabem doer. Veio à tona a adolescente que escondia cadernos embaixo da cama, com medo que descobrissem o que ela escrevia. Veio também a mulher que nunca parou de escrever mesmo quando rasgava as páginas. Como pode um livro devolver o que eu nem sabia que tinha perdido? Foi então que suspeitei: talvez aquele livro não tivesse desabado da estante para ser arrumado — apenas, ser aberto.
Ao final desses sete dias, a biblioteca ficou bonita. Mas, no fundo, ainda me pergunto: fui eu quem arrumou ou foi ela que me pôs em ordem? Pelo menos agora, sei por onde recomeçar. Talvez fosse isso que eu buscava: um modo de me encontrar entre tantos exemplares e descobrir onde foi que eu mesma me guardei.





