Sou do tempo em que a infância se fazia ao ar livre, com poeira nos pés e vento nos cabelos. Meus pais sabiam pouco das letras, mas muito da vida. Líamos o tempo no voo dos pássaros, nas trilhas das formigas e no latido fiel do cachorro.
A vida era simples, mas cheia de sentidos. Os animais eram como parábola — falavam com o corpo, com o faro, com os olhos. E, entre o mato e o afeto, aprendemos que não eram apenas companhia, mas mestres disfarçados. Ao longo dos anos, alguns animais vieram morar conosco e deixaram marcas pequenas, silenciosas e profundas.
O primeiro bicho que meu pai trouxe para casa foi uma coruja. Naquela época, ela era vista como um bicho de mau agouro. Minha mãe, assustada, mandou que meu pai desse meia-volta com aquela “ave sinistra”. Mal sabia ela que talvez a coruja tivesse vindo até nossa casa para nos ensinar que havia beleza no mistério — e que a noite poderia ser abrigo, não ameaça.
Mais tarde, um passarinho pousou em nossa casa. Pítio trouxe a lembrança de que talvez fosse preciso pensarmos que havia liberdade dentro dos limites e que até um pequeno canto poderia ter a potência de voo.
Aos poucos, outros bichos foram chegando. O porquinho-da-índia, Cha-ka, nos ensinou o valor da ternura e da doçura tímida. Talita, a tartaruga, trouxe o tempo em suas passadas lentas, lembrando que a pressa não garante a chegada. Os peixes, Rô e Ju, nos ensinaram a flutuar por dentro e a encontrar calma no movimento. A galinha Cocó cresceu e se tornou guardiã da rotina, do que é simples. Aquecia e protegia – como fazem as mães com os filhos. Bogus, o sapo, nem sempre era apresentado às visitas, por causa do preconceito com sua aparência. Mas, no jardim de casa, era bem-vindo. Ele nos ensinava que há beleza na pele úmida, na voz rouca, na existência entre dois mundos. E por fim, chegou Buddy, um cão que nos ensinou a amar, sem promessas, sem porquês. Era a presença que ficava, mesmo no silêncio da dor. Guardião de ausências, mestre da ternura cotidiana. No seu olhar doce morava uma alegria simples, daquelas que ficam para sempre.
Cada presença animal em nossas vidas foi uma lição — de paciência, de cuidado, de ternura, de respeito. Eles nos mostraram que o amor verdadeiro não se esgota, e que o vínculo vai muito além da conveniência. Aos poucos, nossa casa se transformou num lar de escutas atentas, pequenos voos, silêncios carinhosos, tempos lentos e alegrias simples. Nos dias partilhados com eles, algo em nós foi se moldando. Com eles, aprendemos a escutar o mundo devagar — no ritmo dos bichos, no silêncio da alma.




