“Veludosas vozes, veludosas vozes, místicas, profundas, suaves, morosas (...).”
Num país onde a memória costuma se perder com facilidade, há encontros que o tempo faz questão de conservar.
Talvez, pressentindo que, em algum tempo, vozes negras se ergueriam — suaves, mas firmes —, o poeta Cruz e Souza, o Cisne Negro do simbolismo brasileiro, compôs versos sonoros e sublimes. Sua poesia murmurava como um canto embriagado, onde a dor de exclusão se transfigurava em beleza. Eram vozes de veludo e ferida.
Décadas depois, em outro tempo e por outra linguagem, uma nova voz negra ecoaria — não nos livros, mas nas ondas do rádio, conduzindo sonhos infantis com o mesmo timbre de acolhimento e beleza. Era a voz veludosa do radialista Osvaldo de Assis, que no programa Clube da Estrelinha anunciava talentos mirins, oferecendo às crianças um espaço para cantar, sonhar e imaginar.
Naquele domingo, no programa Clube da Estrelinha, uma menina branca subiu ao palco ao lado da prima negra, unidas por laços de afeto e convivência. Foi a prima quem sugeriu a canção — Deixa isso pra lá, de Jair Rodrigues — outro negro cuja voz, cheia de ritmo, alegria e dignidade, sacudiu o Brasil.
— Mas é música de negro? — questionaram.
— E daí? É por isso que ela vai cantar — respondeu a prima com firmeza.
Da poesia simbolista à comunicação radiofônica, essas vozes veludosas se entrelaçaram como ecos de uma sensibilidade rara, tecendo, no tempo, um fio invisível de resistência. Cada personagem daquele instante — o radialista, a cantora mirim, a prima conselheira, o próprio Jair Rodrigues — respondia, à sua maneira, ao chamado ancestral da poesia que insiste em existir, apesar da dor.
Cantar, ainda que tentem calar. Falar, mesmo entre silêncios. Viver com voz.
Talvez Osvaldo de Assis nunca tenha lido Cruz e Souza. Talvez Cruz e Souza jamais imaginaria que, algum dia, em uma cidade do Sul do Brasil, outro homem negro seria lembrado por emprestar sua voz — feita de ternura e escuta — às infâncias. Mas ali, naquela manhã, foi uma criança quem cantou um samba, sugerido por uma prima negra. E foi um homem negro quem, transmitiu ao vivo o som das estrelas. Três vozes negras unidas pela música, pela poesia, pela coragem de existir.
Entre as frequências do rádio, ecoaram vozes antes veladas, entrelaçadas ao riso de duas meninas, vibrando por entre as camadas da história. E assim, naquele programa que muitos viam apenas como entretenimento infantil, aconteceu algo maior: a celebração da presença negra viva e sonora, em uma cidade que por tanto tempo silenciou histórias de pertencimentos.




