Dizem que algumas pessoas nascem com o coração ancorado no céu. Desde pequenas, olham para as nuvens como quem nelas reconhece fragmentos de si mesmas. Às vezes, esse olhar se transmite — silencioso e invisível —de pais para filhos. Certas conexões, mesmo sem palavras, atravessam o tempo como reflexos entre gerações.
Foi assim com dois meninos — Oscar e Hugo — de famílias distintas, com trajetórias diversas, mas unidos pelo mesmo sonho: voar.
Oscar nasceu em uma família humilde. Desde cedo, carregava no peito o sonho de alcançar as alturas. Seus olhos brilhavam ao ver o céu cortado por aviões. Mas, como tantos outros meninos do interior, precisou deixar a escola para ajudar em casa. Cresceu, tornou-se adulto, mas aquele desejo seguia pulsando, mesmo que parecesse inalcançável.
Hugo seguiu outro caminho. Desde Caxias do Sul, buscava trilhas que o levassem a tocar o céu. Ingressou na aeronáutica e tornou-se aviador. Mas, um acidente interrompeu sua carreira militar. Em 1937, desafiando as dificuldades, fundou uma escola de aviação civil. Porém, no mesmo ano, durante um voo de instrução, o monomotor que pilotava caiu. Hugo faleceu com apenas 36 anos.
Décadas se passaram e, como dizem, alguns sonhos adormecem na memória dos pais até renascerem no olhar dos filhos. Foi assim com a filha de Oscar — a menina que quis voar com asas de isopor e pediu ao pai que a ajudasse a construir uma miniatura do 14- Bis.
— Era um avião leve como um sonho.
— E ele voou mesmo, pai?
— Voou, filha. Santos Dumont fez o impossível. E nós, agora, só repetimos o milagre.
A réplica foi feita para que a menina concorresse a um prêmio. No fim da semana, lá estava ele: um 14-Bis de isopor, com asas largas demais para o mundo dos adultos, mas perfeitas para o tamanho dos sonhos de uma criança. A menina venceu o concurso e ganhou o prêmio: um voo de verdade. O teco-teco decolou. Ela acenou para o pai com olhos marejados. Pensou em silêncio: um dia a gente voa junto, pai.
Anos depois, Oscar — aquele homem de sonhos adormecidos — viu o céu se abrir, pela primeira vez, diante de si. Foi a partir do mesmo chão que guarda a memória de Hugo Cantergiani que pai e filha alçaram voo rumo ao horizonte. O voo de Oscar, enfim, aconteceu. Porque quem nasceu com o coração nas alturas, cedo ou tarde, encontra um jeito de voar.

