Hoje em dia, se nos descuidarmos, logo colocam um carimbo em nós: você tem TDAH, ansiedade, depressão, etc. Não pretendo ser leviano e desconsiderar o grande número de pessoas que se enquadram nas mais diversas doenças, sobretudo as de origem emocional. É uma espécie de epidemia, e as demandas, principalmente no universo profissional, têm levado um grande contingente a frequentar consultórios médicos e terapêuticos. Preocupa-me o fato de quase todos nos encaixarmos em uma patologia, ostentando diagnósticos com certo orgulho triste. Da mesma maneira, dizemos, com indisfarçável satisfação: estou cansado demais. Como se no excesso pudéssemos encontrar uma âncora para justificar a nossa precária saúde frente às renovadas exigências. Mantenho uma reserva de tempo para gastar comigo e com os amigos com os quais partilho momentos de alegria. Posso estar exausto, porém reencontro o equilíbrio na beleza das boas relações. Tento fugir desses enquadramentos em que vejo tantos se acomodarem e seguirem sem nenhum questionamento. É assim, nada se pode fazer, dizem, já instalados em um canto sombrio da existência.
Nunca acreditei em revoluções pessoais instantâneas. Bons resultados são consequência da paciência e da tenacidade. Procuro ser meu próprio médico e terapeuta, sempre que possível. Tenho-os em minha vida como responsáveis por me equilibrar no limite do necessário. Um único clínico geral cuida de mim desde o início da idade adulta. Confio nele plenamente e sigo suas orientações. Nem todas as manifestações corporais precisam ser enquadradas em algum CID. Há uma sabedoria natural nos órgãos e, na maioria das vezes, eles nos alertam quando estamos seguindo pelo caminho errado. O problema é raramente lhe darmos ouvidos, seguindo com transgressões irresponsáveis: comida ultraprocessada, privação de sono, sedentarismo. Precisamos prestar atenção ao que acontece, física e psiquicamente falando. Talvez assim possamos escapar de tantas categorizações evidenciadas pelo mundo moderno.
A realidade está difícil para muitos. Contudo, sempre há uma solução individual para as machucaduras. Somos o resultado das escolhas feitas em vários níveis. Como os filósofos estoicos nos ensinam, a natureza não nos pune ou premia. Ela apenas quer perseverar e responde dentro de uma ordem de causas e consequências. Ao sair com uma receita do consultório, pergunte-se sobre o seu grau de responsabilidade por frequentar tanto as farmácias. Ainda podemos ser “normais” em uma época de tanta fragilidade. Talvez precisemos, sim, de um especialista em algum momento, mas evite transformá-lo em uma muleta para ser usada mesmo depois de curado.
A vida precisa de sol e luz interior e quem pode gerá-los é somente você.





