Esta singela parte do nosso corpo passou a ser o centro do universo para muitos. E estamos deixando de conjugar todos os pronomes pessoais para nos atermos unicamente ao “eu”. Estas frases encerram verdades, mas o espírito da nossa época vai além. Por certo esbarramos todos os dias em seres egoístas e voltados para si mesmos. Contudo, como deixar de ver os que, em atos de renovada generosidade, acolhem o outro, dividem o pouco que têm e estão sempre dispostos a ajudar? Testemunho isso em vivências de grupos, ao realizar trabalhos de imersão com funcionários de empresas. Durante dois turnos, disponibilizo plena atenção para as pessoas fazerem algo distanciado do cotidiano: acolhimento, escuta. E sem a tentação dos julgamentos superficiais, impedindo a compreensão das razões de cada um. Apenas silenciando e ouvindo. E este simples exercício tem se revelado terapêutico não só para eles, mas para mim também. E quantas histórias magníficas acolho na alma! Basta estar disponível e a entrega acontece sem resistência alguma.
Faço esta menção por querer deixar de lado uma visão tão negativa da humanidade hoje. Em termos de evolução comportamental e ética, sinto-me incapaz de tecer uma conclusão se melhoramos. Somos criaturas ambíguas, oscilando entre a grandeza e o horror.
Uma das características marcantes deste tempo é a falta de pudor em exibir a própria superficialidade, sobretudo se revertida em valor monetário na esfera virtual. Nada muito profundo é dito em trinta segundos. Por isso insisto em publicar, nas redes sociais, conteúdos mais longos. Ceder a um apelo numérico é caminho duvidoso e dificulta imprimir aos demais ideias relevantes. Assim, com pequenos movimentos individuais, vamos mudando a geografia ao redor. Aposto na força que temos como seres dotados do desejo de partilha, para além da contabilidade do sucesso a qualquer custo.
Se você tem muito a dizer, terá ouvintes. Assim foi na Antiguidade. Agora e no futuro. Mantenho uma crença otimista: coisas boas nos esperam lá adiante. Se as mudanças vêm a jato, tudo certo. Ainda tenho a possibilidade de aceitação ou recusa. Escolho as interessantes e a elas permaneço fiel. Se for para se fixar no umbigo, prefiro o do amigo, o do vizinho, de alguém que admiro. Gosto de gente e me entrego ao prazer das agradáveis conversas, sorvendo uma xícara de café com leite, degustando uma fatia de bolo. Dá para ser meio antigo de vez em quando.
Eis uma radiografia de como vejo o mundo. Busco felicidades modestas que reforçam o valor das relações de afeto. Distribuo abraços, sigo acompanhado de bons mestres. Há silêncio em meu entorno e horas para gastar livremente. E o coração continua sendo meu órgão preferido.




