Você também deve ter convivido com pessoas que usam a métrica das dores do passado para definir fracassos e carências emocionais do presente. Todo o peso jogado na infância ou em determinados traumas surgidos em tempos remotos. Há verdade nisso, ninguém duvida, mas um sinal inequívoco de fracasso é se deixar definir por algo pretérito, atrofiando a capacidade de remodelar-se a partir de sucessivas vivências. Sustentar a certeza de estarmos comprometidos de maneira irremediável deixa pouco espaço para a recriação de novos caminhos. Há os felizes que passam pela existência incólumes, recebendo amor incondicional de amigos e familiares. Mas há os menos afortunados. Eles necessitam acessar dispositivos internos, forjando uma reconstrução física e emocional. Como os admiro! Aqui, a palavra resiliência será usada por ser definidora de uma condição responsável por alojar uma rica realidade. Conheci quem, além de se tornar forte, passou a ser propagador da alegria. É como se a consciência dos sofrimentos vividos produzisse uma espécie de capa protetora contra futuras adversidades. Ser criado em meio ao algodão nunca garantiu a ninguém uma entrada sem percalços na idade adulta.
Não sou um apologista da dor, mas me preservo de ideias calcadas em conceitos pavimentados só nas facilidades. Claro, em muitos, experiências traumáticas causam feridas de lenta cicatrização. Porém, quando escapamos da armadilha do vitimismo, é mais fácil refazer o itinerário. Conhecemos inúmeros casos de quem passou por situações indescritíveis. Redesenharam o seu futuro de forma admirável, como se tivessem sido aquinhoados com múltiplas benesses. A mente é a grande condutora desse processo de subsistência. O inferno e o paraíso são estados subjetivos. Escapar de um e visitar o outro depende da nossa força interior. O escritor Oscar Wilde disse: “sofrer é um longuíssimo momento”. A felicidade, ao contrário, comprime as horas, transformando dias em minutos. Queremos cada vez mais. No entanto, se formos incapazes de aceitar o que nos é entregue, seremos eternos ressentidos. A vida não nos deve nada: é feita de meros acidentes e seu único propósito é perseverar. Uma forma de pensar, ao fim de tudo, consoladora, pois nos desobriga de buscar sempre no mistério a razão dos acontecimentos.
Minha infância e juventude foram marcadas pela escassez material e pela impossibilidade da partilha de sentimentos brotando na alma. Fui um rapaz inclinado à tristeza, mas, com a benção dos deuses, fui salvo por alguns encontros luminosos. Muitas vezes, só o que precisamos é sobreviver a nós mesmos. Deixar as tormentas passarem para sermos atravessados pela brisa da serenidade.
Olhe para as páginas em branco, elas estão sendo escritas para dias de sol.




