Você está lendo um texto escrito por um homem velho e sem pudor. Explico a ironia. Vou falar sem grande simpatia do inesgotável assunto Inteligência Artificial, pois ele passou a permear inúmeras conversas entre as pessoas. Além disso, roubei descaradamente o título dessa crônica de uma matéria publicada há pouco na imprensa. Se é para se apropriar de conteúdo alheio, como faz a IA, começo praticando um pequeno furto, dando a ele, no entanto, o devido reconhecimento. Nos últimos anos, ando aderindo ao virtual sem grandes problemas. Não pretendo lutar contra moinhos de vento. Vou incorporando, aqui e ali, o que nos é entregue na velocidade da luz. Minha adesão pode ser mais lenta, mas deixei de recusar o banquete oferecido em generosas porções. Só que, em meio a esse manancial de produtos, meu maior prazer continua sendo abrir um livro e pesquisar. Gosto da ideia de alimentar as conquistas com algum esforço, revelando o valor do raciocínio na obtenção de recursos para ampliar o conhecimento.
Pergunto-me: em um mundo impregnado de tecnologia, como crescerão as crianças cercadas de aparelhos com IA, utilitários ou de entretenimento, tornando a presença de pais algo secundário? Exagero? Talvez não, e as respostas preocupadas de psicólogos e educadores dão conta de uma realidade na qual imperam dúvidas e certa confusão. Surpreendemo-nos fascinados, ignorando as consequências psíquicas geradas nos cérebros em formação. Além disso, estamos criando uma nova geração acostumada a encontrar soluções imediatas. E, sabemos bem, os caminhos de sabedoria demandam tempo e reflexão. Este ser que aqui escreve usa com relativa frequência o ChatGPT. Entretanto, o faz visando buscar alguns pontos de partida, jamais como um substituto para o raciocínio bem fundamentado. Diversas vezes as respostas recebidas são óbvias e rasteiras. Então, volto ao universo das sinapses mentais e me sinto em casa.
Crianças, acautelai-vos! Que o fascínio não se transforme em adesão irrestrita, colocando de lado o gosto pelo uso dos neurônios para resolver questões fundamentais na vida. É cedo para arriscar um veredito, porém precisamos desde já olhar com bastante atenção para essa nova e revolucionária ferramenta. Ela tenderá a se transformar no único apoio para os acostumados a existir na esfera dos conceitos terceirizados. O que vemos agora é apenas o começo de uma gigantesca revolução: ela irá determinar uma mudança de paradigmas em relação a muitas coisas. Daqui a pouco, ao mapearem as mentes infantis, serão percebidas alterações significativas na maneira de ser e agir. Sigamos em frente, mas com a clara consciência de ser ainda um campo desconhecido.
Dele poderá advir uma “criatura” do bem ou do mal. Tudo vai depender de como vamos nutrir o nosso pensamento.



