O tempo segue e vamos descobrindo novas verdades: carecemos cada vez de menos coisas para sermos felizes. Assim, bem simples. Que digo eu, é um dos caminhos mais complexos a serem trilhados. Ensinam-nos a medir o sucesso pela quantidade de objetos comprados, pela ascensão profissional e financeira. Os anos se multiplicam e é bom começar a tirar peças do armário, reduzir a decoração, escolher com cuidado os amigos – eles também. Porque acumular tem o peso das pedras, nos empurra para baixo, para o fundo. O ideal seria nos movermos por espaços quase vazios, sem nada para atrapalhar os nossos passos. Se me mostram uma compra realizada em dois cliques via internet, pergunto-lhes: Precisava mesmo? Recebo como resposta: Ah, mas é tão bom! Pois é, só que é um prazer de curtíssima duração. Logo passa e, em seguida, virá a repetição do ato.
Não pretendo catequisar ninguém. No entanto, nasce uma alegria ao resistir a esse impulso, deixando de lado apelos tão sedutores. Uma vitória sobre si, liberdade conquistada dentro de um mundo que nos afoga em meio a tantas inutilidades. Lembro das minhas queridas tias. Viveram de maneira comedida e pareciam tão satisfeitas! Os dias iam se sobrepondo em afazeres e descansos que eram cumpridos com serenidade, sem ficar ansiosas. E quando, depois de árduo trabalho, podiam pagar por uma roupa, um brinco, ficavam imensamente contentes. E esse sentimento perdurava bastante. Elas permanecem como um modelo de comportamento e procuro imitá-lo, copiando-o em uma realidade calma, longe de tantos apelos. Embora rodeado de tentações, tento esvaziar um pouco a casa ou adquirir o mínimo possível. Só após experimentar como é boa essa sensação percebo estar perseguindo algo útil.
Recordo uma tradição da sociedade sueca: as pessoas, já na juventude, despojam-se de peças com significativo apreço. Um treino necessário para, com a aproximação do fim, entregarmos tudo. Gosto dessa ideia, mas ela exige coragem, convenhamos. Somos seres de apegos e apreciamos dizer com constância: é meu, me pertence. E é mero empréstimo a ser devolvido ao universo. Esse exercício é o resultado do acúmulo interior de leituras e vivências depositadas em nós. Porém, uns ficam agarrados às suas posses, como um senhor octogenário, conhecido meu. Ele ainda se deleita em contar, nota por nota, o dinheiro gerado por seu pequeno negócio de tecidos. Não aceita cartão ou Pix. Quanto a mim, ao chegar a hora final, talvez sugira colocarem em meus olhos uma moeda para dar ao barqueiro Caronte, como faziam os antigos gregos, garantindo a passagem dessa existência para a próxima.
Tudo isso tem a ver com a palavra leveza, você me entende?






