Há múltiplas maneiras de caracterizar a nossa época. Uma delas pode ser a do desejo por exclusividade. E isso vai além do poder de aquisição: o outro não pode ter, devendo ser eu o único. Rastreamos o diferente, o particular. Sim, a raridade define o preço e o valor das coisas. Se o ouro fosse abundante e a terra escassa, essa última valeria milhões e seria vendida em porções diminutas, atingindo cifras astronômicas. Mas há neste comportamento cheio de orgulho em proferir a frase “só eu tenho” uma espécie de deformação da visão de mundo. As religiões sustentam suas verdades no caminho contrário: a grandeza do bem comum, da partilha.
O que gerou estas considerações foi a leitura de uma notícia surgida nas mídias sociais. Em Nova York, uma marca de roupas caríssimas resolveu abrir uma loja em área exclusiva. Até aí tudo certo, os ricos agradecem. O detalhe chocante (parece-me a palavra adequada) é a porta de entrada. Discreta, sem adorno a distingui-la das demais. Ela é tão estreita que só passam as pessoas magras, muito magras. Lá dentro há apenas um tamanho para ser adquirido: pequeno. Gordofobia, obviamente, porém há algo bastante complexo envolvido nisso.
Refere-se justamente ao início desta reflexão. Se é para poucos, e eu for um deles, vou me sentir o escolhido, diferente (superior) aos meros mortais circulando ao meu redor. É um sentimento que tem nutrido a mente de muitos, como se a admissão restrita fosse um elemento definidor do caráter. A sedução advinda dessa maneira de pensar não é nova, claro. Seres humanos com algum tipo de poder financeiro gostam de se cercar de objetos adquiridos por poucos.
A questão: isso está se disseminando em uma escala maior e reduzindo a humanidade a duas categorias: as que têm acesso e as que não têm. Estamos criando vários espaços para somente alguns afortunados passearem por eles. Como a dizer: faço parte de um clube de eleitos. Deixamos de lado, assim, importante parte de nossa empatia interior, evidenciando “valores” questionáveis. Busquemos um ideal variado, norteando os seres dispostos a olhar ao redor de si com abrangência, entendendo o propósito da vida como algo que ultrapassa essa competição do eu contra todos.
Vamos derrubar esses muros reais ou imaginários, sob o risco de produzir guetos sofisticados, vazios em si mesmos. A riqueza se situa no diverso. Incluir, agregar, abraçar. Caso contrário, nos sentiremos pertencentes a uma raça superior, mérito adquirido pela simples exclusão. A nobreza é um atributo filosófico, resultado de longa investigação sobre as virtudes e os defeitos que nos compõem. Se as portas forem largas, os corações também se expandirão.



