Das inúmeras e gratas lembranças que tenho de minhas tias a mais forte é, certamente, a de sua religiosidade em estado puro. Valho-me desta expressão por saber que nunca se fizeram grandes indagações metafísicas, apenas incorporaram em seu repertório espiritual a presença de Deus como um abrigo para as adversidades da vida. Iam frequentemente à missa, adoravam os padres, vendo-os como seres acima dos humanos, ungidos pela divindade. Era assim naquele tempo, sobretudo no interior, onde sempre moramos. Recebiam a cobrança de marcar presença nos rituais católicos, sob risco de arderem no fogo do inferno. Medo e culpa. Esse terrorismo emocional não era visto como uma barganha com o além. Aceitavam de maneira tácita o que haviam aprendido com seus pais e avós. E, como bem testemunhei, foi a força propulsora para encontrarem um sentido diante do imponderável.
Passados tantos anos, percebo ter sido incapaz de compreender isso em sua plena dimensão. Em muitos momentos, inclusive, questionei-as com ironia, convicto de a razão ser um guia mais confiável. Olhando em retrospecto, percebo minha imaturidade e apreciaria dizer-lhes ter entendido a opção feita por elas. De alguma forma, somos todos órfãos e precisamos de consolo. Ao rezar o terço e se confessarem, estabeleciam um poderoso vínculo com o além, sem a necessidade de qualquer comprovação quanto à existência ou não de algo que nos ultrapassa. Só obedeciam aos ensinamentos recebidos, sem revesti-los de dúvidas ou perguntas. A tia Assunta tinha veneração pela Nossa Senhora de Caravaggio. Um pouco antes de falecer, disse-me estar tranquila em relação à morte, pois sabia haver uma legião de anjos esperando para conduzi-la a essa nova morada. Só agora compreendo a real significação desse pensamento mágico, sustentáculo de tantas pessoas. Tirar-lhes isso teria sido impensável.
Ao dar-me conta da minha ignorância, sei haver coisas além da linguagem. Hoje, acaricio o mistério e a ele me entrego com menos resistência. Deixei de lado o orgulho da racionalidade e da lógica, percebendo haver propósitos maiores a serem descobertos depois. Deixo tudo em aberto, pois mais do que uma situação cômoda, reconheço ter tido escassas experiências no universo místico.
Por fim, vêm-me à mente a imagem de minha mãe, Anna, e sua inquebrantável força perante situações adversas. “Deus sabe o que está fazendo”, dizia ela, servindo de eco a tantos outros em situações de desamparo. Alguns diriam ser equivalente a terceirizar a responsabilidade frente a um mundo indiferente a nós. Respeito e admiro os que colorem seus dias com a presença do divino. Nossa desimportância cósmica deve ser questionada: talvez sejamos um elo valioso de uma realidade ainda desconhecida.
A fé não é uma resposta, mas um ponto de partida para as almas famintas de verdade.




