A nova moda entre os americanos endinheirados (logo estará entre nós) é a de pagar, e bem, por retiros de silêncio para dispor de várias horas lendo, sem serem interrompidos. É uma inédita modalidade de clube de leitura para frequentadores em busca do mesmo ideal. Só que bem chique, lembrando riqueza. Interessante, mas precisamos pagar também por isso? Acho modismo e um tanto de preguiça, pois se nos esforçarmos, encontraremos lugares onde a quietude e a solidão repousam. De graça. Mas não rende foto em rede social e aí... Enfim, só para refletir sobre uma questão tão contemporânea.
Continuo optando pela simplicidade. Muitas coisas estão à disposição, sem a participação de intermediários. Um exemplo: se você estiver se sentindo sobrecarregado, vá a uma igreja vazia e sentirá imediatamente o efeito apaziguador do espaço. Vou com frequência e consigo uma admirável conexão comigo mesmo. Fecho os olhos e procuro ser devolvido ao momento, afastado dos estímulos desorientadores, que são excessivos e constantes.
Dirão os menos propensos a crer nestes pequenos remédios: “Não é tão fácil, precisamos remar contra a maré e é tão cansativo.” Sim, mas só até o ponto de descobrir que a única salvação é a individual, deixando de lado a visão do outro e priorizando a verdade pessoal. Este é o convite que nos fazem os poetas e os filósofos. Pouco importa a realidade exterior, ela é apenas o cenário para ancorar as emoções. Se nos tornamos mera aparência, descartaremos a possibilidade de sermos nossos regentes no pensamento e na ação.
Cabe perguntar: qual o valor a ser atribuído às coisas? Ele será potencializado pela sua raridade? Moro em uma chácara e sou abraçado pelo silêncio. E me parece ser algo tão natural, integrado ao mundo. Deve valer para todo pequeno ato cotidiano. Inclusive em relação ao amor, pois se nos descuidarmos, ele parecerá trivial, embora fazendo parte da categoria dos milagres avulsos.
Faço tais ponderações por perceber que estamos monetizando tudo ao redor. Prefiro ignorar os inúmeros tutoriais que nossos pais e avós nem sonhavam ser necessários. Esta fala não pode ser vista pelo viés do saudosismo. É uma tentativa poética de recuperar alguns centros vitais da existência. É bonito que nos peguem pelas mãos e digam: venha, é por aqui. Mas só se houver gratuidade, sem interesse retributivo. Há uma boa dose de idealização neste desejo, bem o sei, porém veja-o como o devaneio de alguém apostando no sentido da palavra pureza.
Permitam-me seguir assim, todo esperançoso, evitando amputar a vida para colocar em seu lugar uma tabela de preços para qualquer modesto prazer.






