Sou apresentado a um rapaz de trinta e poucos anos, funcionário graduado de uma grande empresa. Extremamente articulado, fala com segurança, reconhecendo seu próprio valor. Tem um discurso claro, sabe evidenciar suas qualidades. Porém... Sua voz denuncia instabilidade emocional. Protege-se, evitando entregar às pessoas detalhes de sua vida particular. Dele sabe-se que nunca atrasa, jamais adia uma tarefa e, sim, considera normal o chefe lhe enviar um WhatsApp às onze e meia da noite. Madrugada adentro tentará resolver o problema. Focado, mantém uma disciplina de quartel. Pergunto-me: terá um amigo para expressar livremente suas emoções? Logo descubro que não. Seu dia se resume a executar e a mandar na equipe. Isso ele faz com gosto redobrado, sentindo até um certo prazer secreto. Mas é difícil dar-se conta disso, pois, mesmo sendo crítico, só é capaz de se ver racionalmente, valendo-se do recurso psíquico do autoengano. Em resumo: é um carente disfarçado de seguro.
Reflito sobre sua condição e percebo ser um fato bastante recorrente. Os agressivos geralmente o são por pura defesa. Escondem dores, sofrimentos que deixaram de ser analisados à luz da terapia ou de bons encontros com seres merecedores de confiança. Em muitos casos, os feridos também acabam ferindo, sem o perceber conscientemente. Ao invés de gerar mais culpa em quem está se autossabotando, opto pelo caminho do acolhimento, do diálogo franco. É um processo complexo, demanda tempo e paciência. Ótimo desafio, pois me interesso pelos dramas humanos. Se você conhece alguém com esse perfil e deseja ajudá-lo, comece por ouvir atentamente, sem fazer julgamentos morais. Sempre há um motivo para justificar comportamentos agressivos. E com raras exceções eles podem ser desmanchados quando oferecemos um conselho, uma palavra ou um silêncio atento, sem a contraposição de algo que fale da nossa realidade individual. A isso se chama respeito. Alguns preferem chamar de amizade.
Colocar o acusatório dedo em riste é fácil, mas a pior das opções. Se não tenho nada consolador a dizer, simplesmente abraço. Uma atitude simples, no entanto, redentora. Todos nós temos essa capacidade de romper no outro suas resistências, pavimentando o caminho da aproximação. Passados vários meses, posso dizer: o jovem em questão descobriu algo transformador: ser feliz é uma escolha. Segue mantendo a excelência na feitura de seu trabalho; contudo, agora querendo ser lembrado pelos vínculos de afeto estabelecidos ao longo da existência. Demorou semanas para ser presenteado com seu primeiro sorriso. Hoje, ao nos vermos, é ele quem me chama para conversar. Disse-me que o salvei. Talvez tenha sido o contrário.

