Nunca conheci quem tenha conseguido cumprir, integralmente, promessas de final de ano. Sabe qual é a razão? Mudanças exigem olhar interior, reflexão, disciplina e vontade. Não acontecem de uma hora para outra. No entusiasmo do momento acreditamos ser viável, mas costuma se revelar bem passageiro — com sorte vai até a metade de janeiro. No entanto, está longe de ser motivo para desânimo. Ancorado na observação direta de pessoas que conseguiram alterar circuitos mentais e partiram para a prática, vou sugerir algumas posturas altamente proveitosas para alcançar novos propósitos.
Em primeiro lugar: fuja do radicalismo. O cérebro vai dar um jeito de te boicotar. Comece de maneira modesta. Abdique da sobremesa diária (no domingo, pode), reaja com calma quando confrontado, obedeça aos prazos de entrega, etc. Sua existência vai adquirindo contornos inéditos sem que perceba. O esforço será menor e, consequentemente, a resistência também. Grandes projetos precisam ser esporádicos. Bom é ir tateando devagar, sem exageros.
Ah, importante: você poderá eventualmente fracassar. Procure levar numa boa. No dia seguinte, volte ao intento inicial. Discretamente, isso irá se incorporando ao seu cotidiano. Pequenas vitórias são tão relevantes quanto feitos grandiosos. Se cobrarmos demais de nós mesmos, a tendência será a frustração. E o bom dessa história é que esses comportamentos ocuparão a sua realidade quase sem que você note. Como funciona? Desconheço, mas é assim. Só vemos a ponta do iceberg, nada além. Sob as águas deve haver um material gigantesco, significando o processo e o trabalho realizado em nosso inconsciente.
Aprenda a caminhar mansamente, encolhendo as suas expectativas. Hábitos levam anos para se sedimentar. E essa paciência vai nos treinando para projetos vindouros. Outro fator entra na equação: deixe qualquer coisa para ser “consertada” mais tarde. A ideia de ter atingido todas as metas é contraindicada. Jogar tarefa para amanhã, desempenhando com esmero as de hoje, pode ser uma excelente ideia. É diferente de procrastinar. Nada de extremismos, só a obediência silenciosa a um tempo necessário para reconfigurar o lado de dentro.
Ah, e evite sair por aí se exibindo como se tivesse feito algo magistral. É dever de cada um diminuir um pouco a ignorância na qual estamos imersos. A humildade é a antessala da sabedoria. O que você faz só diz respeito a si. Não grite de cima dos telhados as suas vitórias. Seja modesto, saboreando com discrição o que alcançou. Se possível, não conte para ninguém. A vida segue seu fluxo, sem o imperativo de estar constantemente exposta ao escrutínio alheio.




