Há duas formas de se relacionar com o mundo que nos cerca. A primeira é reclamando sobre a realidade com a qual nos deparamos, nem sempre agradável, bem o sabemos. A outra diz respeito à capacidade de transformar isso em algo positivo pelo pensamento. Evito andar por aí escurecendo o dia de alguém só porque algo saiu errado. Desenvolvi uma boa aptidão de transmutar as adversidades em um exercício de compreensão mais maduro da existência. Evito dar chance ao desenvolvimento de certas crenças negativas, ampliadas por experiências pessoais. Reflitamos: o ser humano do século 2 antes de Cristo, por exemplo, provavelmente tinha reações parecidas com as nossas. Alteramos as maneiras de nos expressar e avançamos tecnologicamente. No mais... Então, é adequado simplesmente nos adaptarmos, trocando a resistência pela aceitação. É um modus operandi e seu propósito é o aquietamento. Diante de obstáculos e desafios, visito meus filósofos preferidos e com eles me aconselho. Esforço-me para desviar a lupa do adverso.
Como na música de Chico Buarque, busco fazer tudo com açúcar e com afeto. Gente que insiste em ver tempestade onde há apenas uma nuvem passageira tem me cansado. Se andamos ansiosos, a culpa não é só da pressa e do ruído que nos incomodam. Ganha-se por deixar de seguir o ritmo imposto pela modernidade, ampliando a satisfação de recusar as escolhas atreladas ao senso comum. Adoçar o ruim transfigura a mente a tal ponto de ser capaz de mudar os processos neurais. Poder pouco explorado por nós, porém suficientemente forte para estabelecer novos paradigmas emocionais. Modificamo-nos do lado de dentro e o restante adquire feições inéditas. Lembro aqui do título de um livro do cientista Miguel Nicolelis — O verdadeiro criador de tudo —, referindo-se ao cérebro, esse fascinante sistema computacional cuja complexidade extrapola a IA e os algoritmos.
Gosto da mansidão e da gentileza. Da simplicidade. Um único dia é uma vida, uma jornada inteira para explorar a si e aos demais. Na sentença de Sócrates, para conhecer os homens e os deuses é preciso investigar a si próprio. Tenho me tornado um ser mais espiritual, abrigando na alma a possibilidade de constatar os limites do meu conhecimento. Há algo além, conquanto impossível de nomear. Observo quem professa uma fé genuína, real, e vejo nelas mansidão, essa virtude não catalogada, que nos eleva acima do prosaico, do ordinário. Temos salvação, digo todas as manhãs ao levantar. Só posso salvar a mim mesmo, mas tenho a tendência de acreditar na redenção de todos, embora veja e testemunhe tanto egoísmo.
Seguirei acendendo uma chama, mesmo sob os temporais.




