O magnífico personagem Zorba, do livro homônimo de Nikos Kazantzakis, olhava o mundo com o espanto de uma criança ao vê-lo pela primeira vez. Tudo o encantava. Ele não precisava de nada excepcional para exaltar a vida. Um cão passeando solto pelas ruas, uma mulher dançando num café, o vento derrubando as folhas das árvores... Isso era suficiente para despertar nele a gratidão, inventando um eterno feriado para a alma. Penso em sua personalidade exuberante, em seu amor pleno pela existência e sou convidado a fazer o mesmo itinerário. E lembro de minha amiga Virgínia, uma pessoa solar que passeia pela realidade cotidiana como se fosse uma festa, entrando nela com exuberante alegria. Essa sensação é expressa no seu tom de voz, no corpo inteiro, com eterno maravilhamento. Seu entusiasmo me deixa feliz. E me convoca a comemorar a singeleza de uma segunda-feira qualquer.
Está nos faltando isso. Resgatar a aptidão de ver o belo nas coisas, até quando a tristeza nos visita, pois há nela o gosto do que pulsa e nos faz sentir partícipes do universo. Exigirá de nós algum esforço, pois, imersos em um tempo de novidades constantes, já não mesclamos a nossa visão com poesia. Então, saio pelas ruas disposto a me nutrir de todas as ofertas. Duas ou três frases soltas entreouvidas na calçada, o voo de um pássaro, uma menina tomando sorvete, a brisa se esgueirando entre as casas. Devemos inventar razões para celebrar. Falhar na capacidade de se contentar com o miúdo costuma ser um sinal evidente de redução da sensibilidade, característico da nossa época, amante da pressa. E aqui se encontra algo a ser repensado: a necessidade de recuperar a lentidão, pois é um princípio de sobrevivência do universo interior. Somos incitados a ver somente o lado de fora, com seus picos de dopamina. É preciso, no entanto, adentrar a catedral das emoções, mapeando-as com a delicadeza de um ourives.
Ando satisfeito por conseguir colocar em prática ensinamentos que antes eram apenas letra morta. Para refinar o espírito, há que se passar do discurso para a ação. Talvez esta seja a atitude mais difícil para um ser humano. Acomodados no conforto da repetição, recebemos comandos do cérebro para ficar no lugar de sempre. Vigiemos, pois muitas vezes o belo é ignorado e será necessário voltar atrás para recobrar um instante de lirismo perdido. Atenção, digo para mim, pode estar acontecendo um milagre avulso e você é incapaz de ver. Daí o valor de fixar dentro de si estes momentos sublimes, até fazerem parte da nossa natureza. Eu sonho com o dia em que nada me parecerá comum, pois na verdade não o é. Caminhemos com os pés leves, pois estamos pisando em solo sagrado.




