Durante um chá da tarde na residência de um casal de amigos, ouço a esposa tecer um comentário encantador. Há vários anos, ela e o marido têm uma combinação: a primeira fala entre eles, logo após acordarem, precisa ser uma referência a algo positivo, fraterno. Notícias e tragédias ficam de fora de seu cardápio do começo da manhã. Este é o seu nutriente emocional, uma maneira sábia de expulsar o que poderia contaminar a leveza. A ideia de suceder o bom-dia com alguma manchete carregada de negatividade ou desgraça costuma ser uma prática cotidiana entre muitos. Os efeitos para o cérebro são comprovadamente desastrosos. Criamos um espaço para abrigar o conceito de que o mundo está ruindo, quando, na verdade, chega a nós apenas uma parte da história: aquela que aumenta a audiência. Você haverá de esperar bastante tempo para ver estampadas nas capas de jornais e revistas manchetes exaltando um fato poético, construtivo. Assim somos: a desgraça nos faz arregalar os olhos e despertar o desejo de ansiar por mais.
Por uma dessas agradáveis coincidências, no início da mesma noite, leio uma frase interessante sobre o propósito exposto acima. Dizia: “Não leve seus inimigos para a cama.” Pensando nisso, e de forma intuitiva, evito ao máximo usar celular ou notebook antes de me preparar para dormir. TV no quarto? Nem pensar. Só uma pequena pilha de livros para serem o aconchego da alma nos momentos que precedem o sono. E isso faz a diferença. As consequências geradas pelas informações referentes a desastres ou ao território cada vez mais hostil da política nos colocam em franca desvantagem se comparados a quem os ignora. Não faço aqui a apologia da alienação. Habitamos um universo de confrontos verbais e físicos. Os sedentos de poder desejam reconfigurar seu espaço a partir de uma ótica narcisista, incapazes de ver o todo. Saboreio com alegria as conquistas próximas ou de desconhecidos. Se criarmos no entorno uma energia mental coletiva de acolhimento, direcionando o olhar para o que abastece o espírito, construiremos verdadeiros impérios em nosso cérebro, no ensinamento de Alexandre, o Grande.
Aqui o termo simpatia cai como uma luva. Tudo é filtrado pelo modo de encarar o que é posto diante de nós. Duas pessoas vivenciando uma idêntica realidade podem ter reações diametralmente opostas. Não há objetividade pura, mas ao aderimos a princípios nobres maior será a possibilidade de expandir o conforto interior, resultando no bem-viver. E lembremos, também, de domar os ressentimentos que compõem as relações humanas. Necessitamos dar a eles o merecido distanciamento. Findo o dia, deverão ser uma tênue lembrança, apagando-se como a paisagem ao redor.
A doçura de uma palavra assemelha-se a um lago manso abrigando a vida.






