Em um mundo hiperconectado precisamos buscar alternativas para preservar a saúde mental e emocional. A proposta do filósofo sul-coreano Byung Chul Han parece óbvia, mas pode ser revolucionária, ao mesmo tempo: fique em casa, sugere ele. A ideia de se afastar desse imenso mercado de ofertas em que se transformou o planeta pode ser, realmente, ousada. Claro, os riscos estão presentes também no âmbito doméstico. Afinal, a internet se encontra a um toque dos dedos, onde estejamos. Mas o propósito está aí: apesar dessa sedutora possibilidade, direcionar algumas horas para a inatividade. Como assim?, dirão os entusiasmados da constante produção. Pois é, gastar preciosos minutos sem fazer nada pode ser o melhor indício de uma possível solução para tanta ansiedade e pressa. Fácil? Pelo contrário, e é justamente por ser um desafio que é necessário empenhar as forças disponíveis. É complicado, pois somos constantemente solicitados a nos exibir nas redes, acreditando ser a única maneira de... existir. Podemos ir além: permitir-se sentir tédio, esse sentimento expulso da realidade. Comentava dia desses com um colega sobre a dificuldade em permanecermos simplesmente apreciando o cenário ao redor. Um exemplo evidente pode ser observado quando pegamos o elevador. No curto espaço entre a entrada e o destino final, é raro deparar-se com alguém sem o celular em punho.
Às vezes, ao assistir a um filme ou série, sentimos uma discreta culpa por não estarmos envolvidos em algo “mais valioso”, como somos instigados a fazer toda hora. É uma situação a ser enfrentada, refletindo sobre o absurdo disso. Porém, imagino como seja a cabeça de um grande empresário, que precisa ficar ligado quase sem interrupção. Já não fosse suficiente o catecismo internalizado pelas religiões repressoras, agora temos esse chamado sutil para não parar jamais. Se percebo haver risco de adoecimento da alma, vou brincar com um cão ou passear pelo jardim. São momentos de quietude, com o único objetivo de partilhar afeto ou contemplar a natureza. Até isso se tornar hábito, no entanto, foi fundamental lutar contra essa compulsão pelo excesso. Subtrair, eis uma palavra a ser introduzida em nosso dicionário interior. Encantar-se com as miudezas da vida, sem registrá-las senão na mente. Somos convidados a extrair da existência admiráveis lições, desde que não viremos as costas a elas.
Lembro-me das minhas queridas tias, personagens de tantas crônicas passadas. Elas eram capazes de ficar conversando entre si longamente, a despeito de terem sido criadas de maneira severa para o trabalho e recebido uma educação pouco afeita ao ócio. A maturidade as ensinou que o diálogo despretensioso entre pessoas próximas pode significar uma espécie de salvação. Seus comportamentos ressoam dentro de mim e me policio ao notar que estou me desviando de nobres intenções.
Então, meus amigos, vamos simplificar. O espaço que nos abriga pode ser um universo. Basta aprender a explorá-lo com sabedoria.



