Um dos maiores equívocos do ser humano é ver-se como um ser separado da natureza e dos demais. Tudo se interconecta. Caso contrário, desapareceria a vida. Dependemos das plantas, do ar, do sol, dos animais. Isolados, seguindo o padrão do pensamento ocidental, seríamos extintos em pouco tempo. A concepção relacional sustenta-se na doutrina budista e em diversas expressões filosófico-religiosas. Se nos alinhássemos a elas, muitas das atividades predatórias que estão precipitando o caos planetário estariam longe de atingir essa dimensão perigosa. Afasto-me da ideia de ser o emissário do apocalipse: só evidencio uma realidade ignorada por governos e donos de empresas detentores de grande poder. O universo gera a si próprio, incorporando ou expulsando alguns hóspedes predatórios. Persisto em minha crença na capacidade de revertermos erros em situações-limite. No entanto, temos que deixar de ser tão ambiciosos, ou estaremos fadados à extinção. Vale amparar-se na permanência do bom senso, sem o qual não teríamos chegado até aqui.
Precisamos aprender a valorizar o que está afastado do utilitarismo. Valhamo-nos de um exemplo contundente. Se as abelhas fossem extintas, deixaríamos de ter alimentos no mundo. Vamos além: o açúcar presente na culinária conecta-se a uma cadeia infinita de outros seres para chegar a nós em sua versão final. Perceber isso é dar-se conta do valor do que nos circunda e um exercício meditativo sobre a importância de cada detalhe que compõe a existência. Dos atos simples aos intrincados, estamos inexoravelmente amarrados àquilo que, tantas vezes, desconhecemos. O corpo, em sua complexidade divina, provém do pó oriundo das estrelas. E depois de ter dado o último suspiro, voltaremos a integrar outra manifestação física, em nova configuração cósmica. Nada é extinto: há apenas a lei da transformação. A questão é deixar de lado a inclinação narcísica de sermos o centro, o núcleo. No máximo, um elemento acrescido à infinita cadeia deste minúsculo fragmento do universo chamado Terra.
Sou crítico e otimista, em igual medida. Creio na prevalência de uma força reguladora. Ela estará sendo orquestrada por Deus? Num exercício de humildade, respondo: não sei. Prefiro apostar na transcendência para além dos cinco sentidos. Nossa visão é parcial e comprometida pelos ensinamentos recebidos através da sociedade. Sustentar o oposto seria arrogância. Então, sigo observando o meu entorno e me maravilhando. Também estou no pássaro, na grama, no velho trabalhador de um campo da China. Dispenso a busca de mais milagres: basta olhar e reconhecer isso. É inacreditável sermos criaturas regidas pela autoconsciência. Só nós, até onde se saiba. Um mistério que, sem dúvida, faz parte do plano da criação, potencializando a responsabilidade de manter viva a casa que nos abriga.





