Entre os grandes mitos comportamentais está a convicção de a velhice ser, necessariamente, um tempo de sabedoria. Não é verdade. A única certeza é a do envelhecimento do corpo. Tudo o mais exige trabalho, estudo, análise. Pensando nesta jornada, faz-se necessário um considerável investimento até o último dia de vida. Uma frase enganosa, tantas vezes repetida por nós, trai a realidade: “Já não tenho idade para isso”. Segundo o estoicismo, se você aprender algo no derradeiro dia de sua existência, isto será admirável, pois disporá de vinte e quatro horas para se afastar da ignorância.
Deve-se começar bem cedo. Se hoje há médicos geriatras iniciando tratamentos com pacientes em idade precoce, precisamos cuidar, em paralelo, da nossa alma ainda quando jovens. Nada de valioso acontece ao acaso. É uma lenta construção, um longo plantio pensado para, nos anos finais, termos alimentos interiores para nos enriquecer. Acompanhei a partida de alguns seres muito próximos e vi serenidade em seus olhos, por terem guardado dentro de si os frutos de um tempo de reflexão e busca de conhecimento. Cada um constrói seu itinerário pessoal, fazendo parte do roteiro da humanidade a criação de propósitos que nos ajudem a travessar esse período de consideráveis dificuldades.
Em primeiro lugar, nutrir-se de arte. Descobrir em si, sem depender necessariamente dos outros, o prazer em usufruir de várias formas de beleza que nos elevam e edificam. A sociedade, com seu ideal de amor romântico, por exemplo, tende a colocar expectativas irrealizáveis sobre os relacionamentos. Porém, para alcançar a plenitude, dependemos sempre dos demais, privando-nos da liberdade de escolha. Ser capaz de extrair conforto na leitura, em um bom filme, ouvindo música, constitui-se em uma potência que nos protege da solidão. Gostos a serem desenvolvidos com zelo e afinco, sob o risco de não os incorporarmos mais tarde. Poucas coisas são tão alentadoras como esse diálogo com o mundo que nos cerca.
O desenvolvimento de um espaço para abrigar as amizades revela-se essencial. A maior queixa de quem se aproxima da morte é a de ter dado escassa importância aos afetos. Acreditamos no valor de um legado material. Somos acumuladores e, ao menor descuido, podemos ser soterrados pela ambição. Então, parece indicado incluir nas prioridades os bons encontros. Eles vão nos levar, de maneira natural, ao deslocamento de nós mesmos e a sair do âmbito individual, indo em busca de alguém para partilhar dores e tristezas. Será vencido, assim, um dos piores inimigos da saúde emocional: a resistência. “Pode ser depois?”, dizem-nos os especialistas em procrastinação.
Acrescente no pacote a espiritualidade e a chance de chegar lá adiante flertando com a alegria estará garantida. Por fim, lembre com atenção das palavras de Lord Byron: “O melhor profeta do futuro é o passado.”




