Hoje ou em séculos anteriores, o populista ou oligarca que planeja manter sob seu comando um séquito de pessoas dóceis, passivas e fáceis de serem manipuladas, apostará suas fichas na manutenção da ignorância coletiva. Se a informação puser em risco a sua autoridade, será jogada para debaixo do tapete. E numa época como a nossa, de fake news misturando-se facilmente com a verdade, o trabalho dos falseadores foi facilitado. Convencer as massas é a intenção maior de quem aspira impor um conjunto de ideias sem nenhum questionamento por parte da maioria. Assim o foi no império romano e, é provável, será daqui a duzentos ou trezentos anos. O desejo de controle encontrará terreno fértil e só bastará repetir meia dúzia de frases de apelo tocante para firmar uma pretensa autoridade.
Para obter sucesso, sob hipótese alguma haverá qualquer incentivo ao pensamento crítico. Se possível, misture religião com política, salientando que Deus guia cada um de seus passos. Ele sempre foi o melhor relações públicas. Seus representantes idem. Jesus ou Alá. Buda ou Maomé. Pretendendo se perpetuar no comando, é aconselhável colocar-se no papel de mediador entre o humano e o divino. Também funciona bem a prática de um autoritarismo sem brechas para o exercício da humildade. Ele costuma ser confundido com potência e determinação. A história evidencia: na origem de toda vontade de ascensão escondem-se sentimentos de inferioridade, necessitando ser compensados (ou camuflados) com a admiração coletiva. Um déficit emocional disfarçado de busca pelo bem-comum suaviza essa sensação tão presente em quem implementa projetos de adulação e subserviência.
Leia o Discurso sobre a servidão voluntária, de Etienne de la Boétie, se você busca entender em profundidade essa questão. Vai aqui um pequeno trecho desta magnífica obra: “Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não apenas por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pela força de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto ser um só, e cujas qualidades não deveriam prezar, porque os trata desumana e cruelmente.”
O assunto mostra um lado obscuro do nosso comportamento. À luz da filosofia, é o mais enganoso dos intentos, pois nos desvia do conhecimento de nós mesmos, propósito absoluto dos aspirantes a alcançar a sabedoria. Em tempo: ciência e arte serão achincalhadas, sob o risco de desenvolverem ideias autônomas. Quando a razão cede seu espaço para o servilismo, estão nos tripudiando, simulando nobres intenções. O ideal é um pouco para todos, e não tudo para um. Precisamos ser salvos de quem pretende nos conduzir cegamente. A cobiça os orienta.






