Eu gosto de conversar com mulheres que, após a viuvez, participam de mil programas, desde viagens para águas termais até a frequência de aulas versando sobre múltiplos assuntos. Escolho quem se encontra nesta condição por terem sempre ótimas histórias para contar. Quando estavam casadas, tiveram sua autonomia cerceada pelos maridos, quase sem exceção. Ao lhes perguntar como se sentiam, a resposta costuma ser esta: “Ele me deixava fazer poucas coisas. Passei anos satisfazendo as suas vontades. Como raramente saía de casa após se aposentar, exigia minha presença ao seu lado.”
Talvez essa seja uma condição que está em extinção nos relacionamentos. Porém, por décadas (ou séculos) foi a mesma. E aí, quando eles partem desta para melhor, elas renascem do luto e começam a fazer tudo o que lhes foi proibido. E como se divertem, deixando de lado as lamentações e aproveitando ao máximo essa nova condição.
O inverso não é verdadeiro. Ao perderem suas esposas, homens normalmente se deprimem ou se unem a uma criatura mais jovem. Detalhe: nos estudos oferecidos pelas instituições para a maturidade, a frequência é, em sua esmagadora maioria, feminina. Raros senhores avulsos aparecem e saem antes do término. Uma das razões dessa discrepância está no fato delas manterem desde a juventude um leque de interesses variados. Nós destinamos recursos e energia para nos focarmos em uma ou duas atividades, visando sobretudo o aprimoramento profissional. E, ao nos surpreendermos de novo sozinhos, depois de um casamento longevo, sentimo-nos sem rumo. Ao evidenciar meu interesse em saber como se sentem agora, respondem: livres! De onde se conclui, rapazes: precisamos evoluir muito neste quesito. Evito generalizações, mas o número expressivo das que se manifestam aliviadas é um indicador inequívoco de nosso mau comportamento.
As relações estão ficando arejadas, e hoje há uma saudável similaridade de gênero em andamento. Contudo, o caminho a ser percorrido ainda é longo. Há uma revolução comportamental em curso e espero que consigamos reavaliar a forma como foram vivenciados os matrimônios. O modelo romântico traz algumas vantagens e inúmeros problemas. O pior deles é a certeza de que, ao nos unirmos a outra pessoa, estamos adquirindo uma espécie de escritura de propriedade. Se as rédeas afrouxam, a revelação dos mandos e desmandos maritais se torna evidente.
Precisamos correr atrás do tempo perdido. Amor bom inclui respeito, admiração e paridade. Caso contrário, seremos destinatários de certo alívio por parte de quem ficou. Elas trocam a frustração por um admirável renascimento. Nós murchamos, por assim dizer. Está na hora de mudar essa condição. Quanto mais cedo começarmos, aumentará a chance de deixar em quem fica um sentimento de profunda saudade.





