A gente não coleciona só objetos, mas pessoas também. A incapacidade de aderir à vida fluindo em seu ritmo, com a maturidade de aceitar o término de tantas coisas, cria vínculos patológicos que, com assustadora frequência, se revestem de violência emocional. Vale para todas as classes sociais e econômicas, pois, como sabido, a inteligência intelectual está apartada das ações. Podemos ter um discurso maravilhoso e, na prática, agir em sentido contrário. Você e eu provavelmente temos vários exemplos ilustrativos. Apegar-se excessivamente a alguém significa transformar um relacionamento em uma prisão. Ele é definido como zelo, cuidado, e múltiplos nomes ligados a boas intenções; no entanto, corre o risco de redundar em atitudes reprováveis. Ao longo da existência conheci homens e mulheres agarrados ao seu alvo de devoção com evidente exagero. Consideremos o fato de viver em uma sociedade propensa a estimular este tipo de conduta. Se é meu, ninguém toca. A posse desmedida acaba se confundindo com proteção amorosa. O verdadeiro pertencimento implica na condição de partilha.
Muitos vão além dessa espécie de clausura. Mantêm um orgulho triste em relação às suas “posses”. Guardar adquire um valor superior ao de usufruir. Com o avanço da idade, sobretudo na velhice, isto tende a se acentuar. O que fazer para encontrar uma solução diante de tal diagnóstico? Os ensinamentos budistas são bastante úteis nesta questão. A consciência de que tudo é corruptível e se altera nos mostra a inutilidade de reter algo ou alguém destinados a ser livres. Já é uma bênção, quase um milagre, a constatação de que nos tornamos merecedores do amor de outro ser. Aviltar este sentimento nos reduz a meros caçadores, dispostos a se submeter de maneira passiva às nossas vontades. Esse entendimento passa por uma longa disciplina da alma, tornando o intento mais meritório ainda. Se vem fácil, vai fácil, como dizemos no conhecido jargão. Será preciso reavaliar múltiplos conceitos introjetados em nós desde a infância, antes de se cristalizarem e adquirirem feições de verdade.
Não se tem a pretensão de propor isso a um jovem, em plena ebulição hormonal. Porém, após algumas camadas de tempo se depositarem sobre eles, os pais devem se incumbir de validar tão alto propósito. As manchetes de jornais estariam menos matizadas do sangue de crimes passionais se aprendêssemos a deixar partir.
Tal clareza nos leva à valorização maior do que nos é entregue, pois não há vínculos definitivos, apenas empréstimos. Agarrar-se é fonte de sofrimento. Vigiar é cansativo. Ao nos darmos conta disso, partiremos em busca de novos ares. Só depois voltaremos a respirar.
Tente colocar sob o sol o que está mofando em gavetas fechadas. Quem vai sair arejado será você.






